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terça-feira, 26 de abril de 2011

HISTÓRIAS DUM TERRAMOTO - 2:46 PARTE III


MUENBOTOKE

A 11 de Março de 2011, um sismo de magnitude sem precedentes...
No ano passado deixei que me lessem a  palma da mão por brincadeira. Era parte dum evento num hotel - vinho, queijo e alguém que lia a sina. A mulher que fazia isso, parecia suficientemente agradável, talvez no inicio dos seus quarenta anos, cabelo comprido, negro e encaracolado, uma saia longa vermelha, casaco de couro negro sobre uma blusa púrpura, uma cruz egipcia com uma fita de seda preta segurando-a à volta do pescoço em vez duma corrente.
Com um ar jovial, segurou a minha mão na sua enquanto eu me sentava, focou-a, esticando levemente a palma com um dedo pequeno e fino, e disse uma coisa um pouco estranha.
"Você tem um quadrado no monte de Mercúrio, a sua vida será e tem sido, uma vida excitante, ensombrada pela fatalidade onde esteve e onde há-de ir."
"Será que eu não poderia ter direito a uma leitura ligeiramente mais optimista?" brinquei. Ela riu-se e eu fingi que tinha que me encontrar com alguém, que estava atrasado, e saí. 
Eu não preciso que alguém me diga que a minha vida involve fatalidade. Todos conhecemos aquele pequeno e divertido provérbio Budista acerca da nossa condição de seres mortais:
"A causa da morte é o nascimento".
(...)

JAKE ADELSTEIN
TÓQUIO

quarta-feira, 20 de abril de 2011

HISTÓRIAS DUM TERRAMOTO - 2:46 PARTE II



FORMATURA

Tínhamos acabado de regressar a casa do concerto de despedida da minha irmã mais velha, quando a catástrofe sem precedentes
aconteceu em Tohoku e Kanto. A nossa filha mais nova estava na casa de banho mas a porta do quarto das crianças tremia e abanava. Era estranho. A irmã estava ainda na escola. Seria um fantasma? Que ideia mais parva. Não, é um terramoto! Está tudo a tremer como nunca antes! Demorou um minuto até perceber isso. E então, logo a seguir, veio o blackout. Corri para a escola para ir buscar a minha filha mais velha. Alguém dizia que de acordo com as previsões um grande tsunami vinha a caminho. Mas nessa altura eu ainda pensava, "Não, não vai acontecer." (...)
Os contínuos cortes de energia são de facto inconvenientes, mas não são nada comparados com o frio sentido nos abrigos. A pastelaria teve que fechar e era o dia de anos da nossa filha mais nova. Então, eu mesma fiz o bolo. Para ter chocolate, juntei todos os Hershey's do dia de São Valentim e derreti-os. Acabei de o fazer dez minutos antes do blackout. Ufa. Colocamos velas de emergência no bolo de chocolate e celebramos os oito anos da nossa menina.
 Nesse mesmo dia chegaram os sapatos novos para a cerimónia de formatura. (...) Quando as crianças desfilaram no ginásio, costas direitas, peitos para fora, os meus olhos arderam. (...)
Tudo teve um ar solene, quase sagrado. Todos tinham a cabeça bem erguida. Crianças de doze anos. Que impacto teve neles este desastre? Pertence-lhes o futuro do Japão por reconstruir.
(...)
Eu penso como fui afortunada por poder presenciar este momento tão especial.
Feliz formatura!
Que todos vocês possam ter uma boa viagem enquanto seguem os trilhos da vossa vida.

MAY ARAI
KAMAKURA

domingo, 17 de abril de 2011

HISTÓRIAS DUM TERRAMOTO - 2:46: AFTERSHOCKS: STORIES FROM THE JAPAN EARTHQUAKE - PARTE I

Entre os dias 18 e 25 de Março de 2011 um grupo de cerca de 100 pessoas, entre anónimos e personalidades conhecidas, utilizando fundamentalmente o twitter e a internet, construiu um livro onde se agrupam pequenas narrativas individuais, testemunhos, reflexões, ilustrações e fotos sobre o momento vivido no Japão a 11 de Março, quando os relógios marcavam 2:46 na hora local.
O livro está, por enquanto, apenas disponível na versão eBook- Kindle na Amazon.com, e a totalidade do valor pedido na compra ($ 9.99), é destinado à Japan Red Cross Society. 
Não resisti, e apesar de não ter Kindle, comprei o download disponível para computador.
Já o li, e não consigo deixar de partilhar aqui algumas das histórias em tradução minha ( existe apenas uma versão em Inglês).
Irei fazê-lo ao longo da semana.
Espero que me acompanhem. Vale a pena.

ENCORAJAMENTO

Tem sido um pesadelo duma semana. Espero que todos os que foram atingidos por este desastre, possam em breve acordar dum sonho mau, mas não tenho quaisquer palavras de conforto. Como um homem velho, com uma esposa também idosa, passei por bastante esta semana. Mas isso não é nada comparado com as vidas daqueles que estão nos abrigos. Agora que as coisas sossegaram um pouco, vou tentar reunir os pensamentos de muitos  outros idosos com quem falei. Para nós, pessoas doutros tempos, confundidas com a escassez de informação, a rádio tem sido a nossa mais fiável fonte de notícias. Muitos de nós, idosos, estamos familiarizados com a rádio, e escutamos emissões tardias, de noite, com baterias que surpreendentemente duram muito tempo. 
Embora saibamos usar os telemóveis para as funções mais simples, quase não os usamos nesta emergência porque as cargas terminaram rapidamente.
Na minha geração são muito poucos os que usam a internet, e como para estar online precisamos de energia, não conseguimos usá-la durante os cortes. Mesmo quando nos ligamos à net, somos pouco hábeis em procurar a informação que queremos. E naturalmente não podemos ligar a televisão quando há falhas de energia. Embora tendo um acesso inadequado à informação, podemos, no entanto, fazer perguntas a pessoas que sabem usar a net e que vivem perto de nós. Por essa razão estamos gratos pela existência dos telefones móveis e da internet. Nós dependemos duma companhia para nos fornecer a internet, o telefone e a televisão. Temíamos que essa infraestrutura tivesse entrado em colapso, mas os serviços foram rapidamente repostos e estamos gratos por isso.
A força da nossa geração reside na experiência. Embora este seja um desastre sem precedentes, o caos do pós-guerra e o terramoto de Miyagi em 2005 deixaram-nos preparados. Muita gente tem um stock de mantimentos de emergência. Rezo para que as pessoas idosas, que estão doentes ou fracas possam receber depressa ajuda médica.
Para ser franco, isto não tem sido fácil para pessoas com mais de 80 anos. Estar em filas durante horas para comprar água ou alimentos, gela-nos da cabeça aos pés, e dá-nos dores nas costas. Mas ver jovens mães pacientemente esperando com os seus filhos, ou a competência das empregadas na caixa, que usam apenas pequenas máquinas de calcular para as contas de tantos clientes, dá-me a convicção profunda de que este país não quebrará face a estas circunstâncias. (...)
Já vivi muitos anos. A noite transformou-se sempre em dia, e a chuva nunca deixou de cessar.
As condições melhoraram esta semana, e melhorarão ainda mais na próxima.
Esta é uma manifestação do espírito de luta de alguém nascido na primeira década do período Showa.
Temos que permanecer fortes.

Grandfather  Hibiki
Sendai

domingo, 1 de agosto de 2010

OS POÇOS DE MARTE

Esta história diz respeito a um jovem que desceu a um das miríades de poços que existiam na superfície de Marte. Estes poços pareciam datar de há dezenas de milhares de anos, mas a coisa mais estranha é que foram cuidadosamente escavados de forma a evitar tocar em qualquer veio de água. Ninguém tinha uma ideia da razão porque tinham sido escavados. E de facto, os Marcianos não deixaram nada para trás além destes poços. Nem escrita, nem habitações, nem cerâmica, nem metal, nem túmulos, nem foguetões, nem sequer ruas. Apenas poços. Todos eles deixando os Terrestres de certa forma confusos. Poderia de facto isto ser chamado uma civilização? Embora tivessem que admitir que eles tinham sido concebidos com engenho (...).
Claro que muitos exploradores tentaram descer os poços. Mas eram tão profundos e as paredes tão longas que aqueles que se seguraram com cordas tiveram que voltar para trás. Daqueles que dispensaram as cordas, nenhum regressou.
Um dia, um jovem vagabundo do espaço, resolveu tentar a sua sorte. Estava cansado da vastidão do espaço e queria morrer onde ninguém o pudesse encontrar. Contudo, quanto mais profundamente descia, mais leve o seu coração se sentia. Uma espantosa energia envolvia o seu corpo. A certa altura, entrou por um túnel lateral e seguiu indiferente o seu curso sinuoso. Perdeu a conta a quanto tinha andado. O seu relógio parou durante o percurso. Talvez tivessem passado duas horas, talvez dois dias. Não sentia fome nem fadiga. Somente aquela misteriosa energia que desde o início o envolveu.
Então, num certo ponto, sentiu um raio de luz. O túnel tinha conduzido a outro poço, que ele de algum modo conseguiu subir, voltando à superfície do planeta. Sentado na beira do poço estendeu o olhar pela vastidão do deserto Marciano, depois pelo sol. Alguma coisa estava diferente. o cheiro da brisa, o sol...O sol estava ainda alto no céu, mas era uma gigantesca bola laranja da cor do pôr do sol.
"Daqui a 250.000 anos o sol explodirá..." susurrou-lhe a brisa. "Oh, não te importes comigo" continuou a voz. "É só o vento. Podes-me chamar um Marciano se quiseres. As palavras são menos do que nada para mim."
"Mas estás a falar."
"Eu? És tu quem fala. Eu só deixo pedaços de pensamentos na tua cabeça."
"E o sol? O que é que aconteceu ao sol?"
"Envelheceu. Está a morrer. Não há nada que possamos fazer."
"Mas porquê tão subitamente...?"
"Não foi assim tão súbito. Demoraste muitos anos no teu caminho pelos túneis. A tua espécie tem um ditado. O tempo voa como uma flecha. As passagens entre os poços que atravessaste, foram escavadas de forma a contornar a curva do tempo. Sabes, nós somos viajantes através do tempo - desde o nascimento do universo até à sua morte. Nós somos os ventos."
"Tenho então uma pergunta, se puder..."
"É um prazer."
"Aprenderam alguma coisa?"
O ar tremeu por instantes, uma gargalhada na brisa. E mais uma vez, o eterno silêncio desceu na paisagem Marciana.
 O jovem... tirou uma pistola do bolso, apontou-a ás têmporas e premiu o gatilho.
Tradução minha dum excerto do primeiro romance do escritor Japonês HARUKI MURAKAMI, "KAZE NO UTA O KIKE" (HEAR THE WIND SING).

quinta-feira, 29 de julho de 2010

HITOSHI IGARASHI E SALMAN RUSHDIE


 Salman Rushdie vai publicar um livro sobre os seus anos de "fatwa", e lembrei-me que entre as diversas vítimas que, corajosamente, traduziram, publicaram ou defenderam "Os Versículos Satânicos", está um Japonês. HITOSHI IGARASHI, 44 anos, doutorado em Arte Islâmica pela Universidade de Tóquio em 1976, trabalhou como investigador na Royal Academy of Iran, até à data da Revolução Islâmica em 1979. Traduziu em Japonês a obra de Rushdie em 1990, e em Julho de 1991, foi esfaqueado até a morte no seu local de trabalho, a Universidade de Tsukuba, Ibaraki, onde ocupava o cargo de professor especializado em estudos Islâmicos. Poucos dias antes, o tradutor italiano, tinha tido melhor sorte, saindo apenas do ataque sofrido com ferimentos severos. Os 34.000 polícias mobilizados para o caso IGARASHI, nunca encontraram qualquer pista.
Hoje, quis homenagear a coragem de IGARASHI, e já agora de Ettore Capriolo (o tradutor Italiano), William Nygaard (o editor norueguês, que por pouco não foi assassinado em Oslo), Aziz Nesin (o tradutor turco, num ataque que o tinha como alvo, morreram 37 pessoas), e de todos os que, apesar da insana "fatwa" lançada por Khomeini, conseguiram permitir que por todo o mundo, a fantástica história de Rushdie fosse lida.
Eu sei, tudo isto aconteceu há muito tempo...mas há coisas que é importante não esquecer.

sábado, 24 de julho de 2010

NAQUELA NOITE...SONHEI COM O BUDA

Já não é a primeira vez que falo no livro de Will Fergusson, "HOKKAIDO HIGHWAY BLUES". Para alguém interessado no Japão é uma leitura preciosa. Fala de quase tudo. Cultura, religião, arte, mitos, comida, costumes, histórias, geografia, num relato atravessado por uma certa nostalgia poética e por um humor fantástico. Ás vezes, acontece-me pegar nele e ler algumas páginas ao acaso. Gosto bastante desta passagem, e quis partilhá-la, traduzindo-a:
"Naquela noite, sonhei com o Buda.
Ele estava na berma da estrada e segurava um cartaz que dizia: Olá a toda a gente. Eu sou o Buda. Por favor não me matem. Depois, mesmo quando cheguei perto dele, partiu num pequeno Toyota.
Há um ditado Zen que diz: "Se encontrares o Buda na estrada, mata-o." Foi por ele que eu desisti do Zen. Era uma afirmação simplesmente demasiado provocativa (...).
Resmas de comentários foram escritas acerca desta frase(...). São possíveis variadissimas interpretações. As semânticas são dissecadas. Debates organizados. Argumenta-se que o Buda não é uma pessoa real mas um estado de espírito, um catalizador para a Iluminação. Se pensares que encontraste o Buda, isso não aconteceu. O Buda que podemos ver, não é o Buda real, apenas uma ilusão. Destrói-o. Outras interpretações são menos esotéricas. É o Buda que vimos na estrada e devemos matá-lo. Porquê? Porque devemos ir para além do reino dos opostos, para além lá do sujeito e objecto. Mesmo para lá do Buda.
(...) Se a vida é uma ilusão, talvez a ilusão não seja assim tão má. Talvez a ilusão seja vida. Talvez a solução seja aprender a abraçar a ilusão, aprender a aceitar o mundo transitório á nossa volta, aprender a viver entre miragens. (...)
Se encontrarem o Buda na estrada, não o matem. Continuem com o polegar no ar. Quem sabe, talvez ele vos ofereça uma boleia."

Will Fergusson, percorreu á boleia, os 3000 quilómetros que separam Cape Sata, a extremidade sul do Japão, de Cape Soya, o ponto mais extremo a norte.

sábado, 17 de julho de 2010

IDORU

No momento em que decidimos criar um blogue, adquirimos também uma identidade virtual. Passo a passo. Com a informação introduzida no perfil de blogger, pretendemos que os outros apreendam o reflexo virtual do que somos na realidade. Depois há o fundo que escolhemos, as cores, o nome, a imagem que se vê na abertura, a frase que elegemos como mote, as mini aplicações, uma panóplia de coisas que falam de nós por si. E finalmente os textos que publicamos, e que carregam, independentemente da nossa vontade, o que está na escrita entre as linhas, isto é, a voz muda da escrita. Mais ainda, fazendo parte da blogosfera, mais dia menos dia, socializamos por aí, e os comentários que semeamos, ajudam a colorir e a definir a nitidez da nossa foto virtual. No fundo é como se tivéssemos uma "second life" na imensa teia da qual dependemos, a internet, ou, para utlizar uma expressão criada por William Gibson, no ciberespaço.
No Japão há ídolos (idoru) reais e virtuais. Estes últimos, são "personalidades media", literalmente fabricadas. Estrelas, modelos, tarento (personalidades televisivas) que lançam CD's e participam em anúncios. Na foto, podem ver um deles: Yuki Terai, dezanove anos, nascida em Chiba, uma viajante do tempo, vinda de 2017. Terai foi desenhada por Kenichi Kutsugi para uma banda desenhada, mas atingiu a fama, depois de aparecer no website do autor com um formato tridimensional. Já lançou um CD e apareceu em vários DVD.
No romance de W. Gibson, IDORU (1996), passado na Tóquio do século XXI, uma mega rock-star internacional, Rez, apaixona-se pela belíssima e maior media star do Japão, a Idoru Rei Toei. Quando declara que é com ela que pretende casar-se, há muita gente a preocupar-se. Mas quando Laney, é chamado a intervir no que se pensa ser uma manipulação, olha os olhos escuros de Toei, esforçando-se por ver nela apenas um holograma, mas vê neles coisas que nunca tinha visto antes. E descobre como é que ela pode, de facto, conquistar o coração dum homem... "O senhor também sonha Mr. Laney?"
Laney, possuía o talento de "localizar dados cruciais em pilhas aparentemente aleatórias de registos". As suas capacidades excepcionais, permitiram-lhe antecipar o suicidio duma das personagens:
 "Alison sabia que ele estava lá, observando. Como se ela pudesse senti-lo olhando para o mar de dados que eram um reflexo da sua vida. A sua superficie feita de todos os pedaços registados no tecido digital do mundo."
Tal como a nossa.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

"CARPE DIEM"


"O olhar é uma opção. Quem olha decide fixar os olhos numa determinada coisa e, portanto, não prestar atenção ao resto das coisas abrangidas pelo seu campo de visão. É por isso que o olhar, que é a essência da vida, é essencialmente uma recusa."
Amélie Nothomb, "Metafísica dos Tubos"

Amélie Nothomb, na foto, nasceu em Kobe, no Japão, em 1967, no seio duma família tradicional de Bruxelas. Desde 1992, data da publicação do seu primeiro romance, que nunca mais parou de escrever. Levanta-se ás quatro da manhã e alimenta-se de chá - preto e forte - até ao entardecer: "Preciso de estar esfomeada para escrever." Pelo menos um dos seus livros está traduzido em Português, "Metafisica dos Tubos", um romance autobiográfico narrado do ponto de vista duma criança (ela própria) que vai descobrindo o mundo particular em que vive, o Japão, onde o pai diplomata é apaixonado por teatro Nõ, e o pequeno tanque de pedra do jardim era habitado por três carpas -Jesus, Maria e José - uma trindade de "Castafiore, mudas, obesas, de vestidos coleantes..." que ela se sentia obrigada a alimentar diariamente , e que povoavam de pesadelos a sua mente de criança.
"Dez anos mais tarde, quando aprendi Latim, esbarrei com esta frase: Carpe Diem.
Antes de o meu cérebro ter tido tempo de a analisar, o meu velho instinto já a tinha traduzido: "UMA CARPA POR DIA." Um adágio absolutamente asqueroso, que resumia o meu calvário de outrora.
"Aproveita o dia presente" era, evidentemente, a tradução correcta. Aproveitar o dia presente? É fácil de dizer. Como é que podemos usufruir dos frutos do quotidiano quando, de manhã, só conseguimos pensar no suplicio que nos espera e à tarde, ficamos a remoer naquilo que vimos?
(...) Era o mesmo que dizer a Blandine (escrava convertida ao Cristianismo que foi martirizada), quando se encontrava na cova do seu suplicio: "Vá lá, não penses nos leões!"
A comparação justifica-se: cada vez mais, tinha a impressão de que era a minha própria carne que alimentava as carpas. Emagreci. Depois do almoço dos peixes, chamavam-me para ir para a mesa e eu não era capaz de engolir nada.
À noite, na cama, povoava a escuridão de bocas escancaradas. Chorava de horror agarrada á almofada. A auto-sugestão era tão forte que os corpos gordos, escamosos e flexíveis das carpas vinham ter comigo entre os lençóis, estreitando-me - e as suas carantonhas beiçudas e frias desabavam sobre o meu corpo. Eu era a amante impúbere de fantasmas pisciformes. (...) De tanto ver criaturas dignas de Jerónimo Bosch, as minhas insónias, outrora feéricas, transformaram-se num martírio."

Fonte: Amélie Nothomb, Metafísica dos Tubos
Foto das carpas tirada num dos meus passeios em Tóquio...

domingo, 20 de junho de 2010

The Clouds Are My Tomb....

"Burial in the Clouds" assinado por Hiroyuki Agawa, desfaz completamente a imagem dos kamikaze como um bando de fanáticos, de lenços atados à volta da testa, a lançarem-se para a morte alegremente dando vivas ao Imperador. Nesta novela histórica apresentada em forma de diário de guerra, um jovem estudante universítário apaixonado por filosofia e poesia, é levado como muitos outros companheiros a alistar-se na marinha Imperial, sendo treinado como piloto de combate e finalmente transferido para as Forças Especiais de Ataque, os tokkotai ou kamikaze. Os dilemas e contradições sentidos por esses jovens, são bem patentes na passagem que vou traduzir aqui. Uma carta a um antigo professor, comovente e reveladora do estado de espírito de quem, na flor da idade, se vê na iminência duma morte que não escolheu e para a qual não consegue encontrar uma motivação racional.
"Professor E.
Os nossos treinos de voo têm estado parados faz já algum tempo devido á escassez de combustível. Por um momento, quase esperei que as coisas continuassem assim, quem sabe a guerra pudesse terminar súbitamente enquanto estávamos simplesmente a abrir buracos ou qualquer coisa como essa, sem que tivesse que me preocupar mais. Contudo, a realidade não é assim tão fácil. Fomos finalmente compelidos a voluntarizarmo-nos para a força especial de ataque. Os voos começam depois de amanhã. Vamos utilizar combustível de álcool, um tipo de combustível perigoso, que deixa de funcionar se a temperatura no interior dos cilindros baixar, fazendo com que os propulsores parem a meio do voo.
O público em geral parece pensar que só os mais corajosos, possuidores de inquestionável lealdade, se oferecem como voluntários para a força especial de ataque, mas isso foi apenas uma fase inicial (...). A decisão parece ostensivamente voluntária, mas falando em termos psicológicos é pura coerção.(...) Tenho muito poucas hipóteses de sobreviver continuando neste caminho. Assim, estou a considerar uma medida extrema para salvar a minha vida e só a minha vida. É tudo aquilo em que penso, noite e dia. Professor, por favor não me reprove por ser egoísta, a não ser que verdadeiramente queira que eu me esmague contra o inimigo ao lado dos meus camaradas.(...)
Pensei em vários métodos. (...) Assim, comecei a dar forma aquilo que já estava vagamente na minha cabeça desde que iniciei os meus treinos de piloto. Estou a pensar fazer uma aterragem forçada numa ilha, durante uma missão de ataque especial. A partir de agora as nossas saídas devem ser dirigidas principalmente para as ilhas Ryukyu ou a área á volta da Formosa. Como sabe, há uma série de pequenas ilhas pelo caminho, ilhas com poucos habitantes e comunicações escassas. Ou talvez uma ilha deserta sirva, dependendo das circunstâncias. Então, tenho estado a recolher mapas das ilhas Ryukyu e a ler histórias tipo "Robinson Crusoe", estudando todas as partes que possam mostrar-se úteis.
Vou descolar procedendo como de costume, até chegar perto da ilha escolhida, e aí simulo uma avaria no motor. Primeiro, afasto-me da minha formação e largo a bomba. Depois, pego na almofada espessa do assento e encosto-a ao painel de instrumentos para proteger a minha cabeça do impacto. Finalmente, com o meu cinto seguramente apertado, fecho o combustível e lanço a cauda do avião na água com o trem de aterragem puxado. Escusado será dizer que o avião vai ficar em pedaços e pode acabar de nariz enfiado na água. Mas, nunca afundará imediatamente, dando-me tempo para desapertar o cinto e escapar. Depois disso, devo poder nadar até á ilha. Contudo, acontece uma coisa estranha. Á medida que focalizo a imagem da minha fuga, uma certa sensação indefenível de vazio invade a minha mente. Não sei bem como explicar isto, mas suponha que eu, de alguma forma consigo sobreviver na ilha. Ali estou eu, passando os dias a pescar ou qualquer coisa assim, quando de repente, vejo um destacamento da força especial por cima de mim, os meus camaradas, rugindo sobre as nuvens, rumo ao sul. E depois que eles se forem, permanece apenas o céu, absurdamente brilhante e tranquilo (...). Tanto quanto posso dizer, não é que a minha consciência esteja a incomodar-me, porque o que tenciono fazer é cobardia, e também não é um medo da solidão. (...) Se não podemos aceitar esta guerra, se estamos decididos a tomar um caminho diferente e a observar a morte dos nossos amigos perante os nossos olhos, isto é uma agonia."
"The clouds are my tomb
Setting sun grace my epitaph"
in, Burial in The Clouds, Hiroyuki Agawa

A foto não corresponde à personagem descrita. Foi tirada por mim no interior do museu do Yasukuni, tal como a foto dos soldados no post anterior.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

AS PÍLULAS DA LOUCURA

Tomoyuki Hoshino é o escritor Japonês que assina um dos meus actuais livros de cabeceira. Li algumas coisas sobre ele e fiquei curiosa. Infelizmente, não existem livros dele traduzidos em Português, pelo que tive que recorrer á Amazon.uk, para obter o meu exemplar de "Lonely Hearts Killer", a única obra sua publicada em Inglês. Hoshino, como podem verificar se clicarem no link para a wikipedia, é um escritor tão premiado como polémico. Mas não vamos falar disso. O que me apeteceu trazer aqui hoje foi o prefácio, ou melhor os prefácios - um da tradutora, Adrienne Carey Hurley, o outro do autor. Adrienne conta-nos a história de Eric Shih, um jovem activista da Chinese Progressive Association em San Francisco, que teria sido a primeira pessoa a quem ouviu dizer, depois da leitura duma notícia, que se tinha esquecido de tomar as sua pílulas da loucura. "A novela de Tomoyuki Hoshino"-diz-nos ela- "é para todos aqueles que como Eric não vivem sob o efeito das oficialmente prescritas "pílulas da loucura" - e aqueles que estão desesperadamente a tentar livrar-se delas." Será que nenhum de vocês, sentiu o mesmo que Eric ao assistir ao noticiário da noite, ou na leitura dum jornal?
Aposto que sim. Hoshino, diz ter escrito este livro, como meio de tornar a loucura visível: "(...) o mundo inteiro actualmente endoideceu. Quando a maioria está tomada de loucura, torna-se ainda mais dificil explicar o que a loucura é e como se manifesta." Por esta altura, já devem estar a pensar que este post está esquisito...
Podia dar-vos imensos exemplos de notícias que são dificeis de encarar sem as "pílulas", mas não cabem no âmbito do Banzai. Mas este, dedico-o a todos os meus leitores e amigos virtuais da blogosfera Brasileira. O Gabinete do nosso Primeiro Ministro anunciou que o Chico Buarque se quis encontrar com ele. Pois é. Já tomaram o comprimido? O Chico desmentiu, pois claro, a coisa tinha sido ao contrário. O Gabinete disse que se tinha enganado. Tomem mais um. Por cá, alguém compôs até um sambinha:
 "A visita do malandro/ foi ele quem a pediu/entrou lá na minha casa/dois minutos e saiu/só depois fiquei sabendo/que ele era malandro fino/ deu noticia na TV/daquele encontro sinistro/que um malandro modernaço/é um malandro-ministro/ Eu tinha mais que fazer/tinha melhor gozação/ que ter um soba metido/ aqui no meu barracão"

segunda-feira, 17 de maio de 2010

COVERS & RECOVERS

Há um ditado que diz: "As aparências iludem."
Facto I
Toda a gente acha os ditados populares uma chatice, imagine-se "Deitar cedo e cedo erguer"!
Facto II
As aparências pesam e muito. Por isso pomos o maior cuidado no lay-out do nosso bloguinho e compomos o perfil, construindo um retrato nosso para os outros, fiel ou não. Presumo que haja quem depois de consultar o meu, nem leia o blogue. Convenhamos que gostar de jazz e dum bom vinho como resumo de perfil, pode não ser o melhor cartão de visita. Não tenho livros, filmes e mais música de que goste? Claro que sim. Dezenas de livros, uns quantos filmes, muitos sons. Mas, não se trata duma lista estática. Teria que estar sempre a fazer acrescentos, sob pena do meu retrato deixar de ser fiel aquilo que vou sendo. E o que sou e vou sendo está nas entrelinhas do que posto.
Facto III
Sou muito pouco receptiva a piercings e tatuagens.
Mas isso não me impediu de ler com agrado um livro que talvez não compusesse muito o meu perfil de bloguista: SNAKES AND EARRINGS, escrito em 2003 por HITOMI KANEHARA, uma jovem Japonesa que contava então apenas 21 anos. Uma narrativa sucinta e crua, onde as transformações do corpo se misturam com sexo, paixão, morte, e a procura duma identidade ou sentido. O exemplar que tenho, tem esta capa...
mas, existe um blogue de duas grandes amigas, o re-cover, onde se inventam novas capas, em tudo diferentes das originais (e bastante mais bonitas), como esta que publiquei aqui. A re-cover que criaram para o Snakes And Earrings é esta...
Se acham que não compravam um livrusko com esta capa, não se esqueçam: as aparências iludem...O livro foi adaptado ao cinema em 2008 por Yukio Ninagawa. Aqui ficam imagens:

domingo, 16 de maio de 2010

MEMÓRIAS DUMA GEISHA

"Memórias duma Geisha" foi publicado em 1997 por Arthur Golden, que depois de ter estudado arte e história Japonesa nas Universidades de Harvard e Columbia, passou 10 anos a investigar os detalhes do mundo misterioso da Geisha. Mineko Iwasaki, que foi uma das Geisha mais famosas no Japão, foi uma das entrevistadas pelo escritor durante esse período, e a ficção de Golden acabou por se inspirar na vida real de Mineko. Quando o livro foi publicado no Japão, Mineko acusou Golden de não respeitar o anonimato que lhe tinha prometido, bem como de distorcer a realidade em alguns aspectos, e processou-o em 2001. O processo acabou por ser resolvido fora dos tribunais, mas Mineko publicou depois a sua autobiografia: "Geisha of Gion".
Em 2005, o romance de Arthur Golden foi adaptado ao cinema, num filme dirigido por Rob Marshall. Nos Óscares de 2006, o filme foi premiado nas categorias de Best Art Direction, Best Costume Design e Best Cinematography. Para quem não viu, o Banzai recomenda. No vídeo, a dança de Sayuri na neve...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Tokyo Bohemian 20's

 Chiyo Uno (1897-1996), não frequentaria, com toda a certeza, uma escola para noivas tradicionais como a do vídeo abaixo. Na verdade, não foram só os seus livros, o design de kimonos, ou o facto de ter publicado a primeira revista de moda no Japão em 1936 (Sutairo ou Style), que a tornaram famosa, mas também a sua aura de "femme fatale".

 Chiyo era descrita como "a mulher frequentemente apaixonada". Casou várias vezes e pelo meio foi tendo diferentes casos amorosos. Decidida a ser uma "mo-ga", rapariga moderna, e a não se confinar ao papel de esposa e mãe, percorreu um caminho  livre de convenções, que terá influenciado muitas outras mulheres Japonesas. O seu best-seller "Confessions of Love", foi escrito durante a sua relação com o artista Seiji Togo, que decidiu entrevistar, logo após a sua tentativa frustrada de duplo suícidio romântico. Encontraram-se num bar em Tóquio, e Togo, tinha ainda o pescoço envolvido numa ligadura branca, o que segundo ela lhe dava um ar irresisitível. Nessa noite, ele convidou-a para sua casa, nos subúrbios de Tokyo, para que pudessem falar mais à vontade. Acabaram nos braços um do outro, no futon onde, pouco tempo antes, tinha tido lugar o pacto de suícidio de Togo e Mitsuko, filha dum Almirante da Marinha Imperial, que se opunha ao romance entre os dois. Uno e Togo permaneceram juntos durante cinco anos.
 Mas, muito antes disso, já sua terra natal, Iwakuni, o gosto de Uno por kimonos exuberantes e maquilhagem, além de despertar paixões,  a forçava a renunciar ao cargo de professora.
Chiyo Uno, foi uma daquelas mulheres Japonesas, que encontrou coragem para deixar para trás uma rígida estrutura social, vivendo de acordo com as suas próprias regras. A época também lhe foi favorável. Os anos 20 no Japão, são os anos liberais do Período Taisho (1912-1926), em que, em Tokyo, "modern girls" (moga) e "modern boys" (mobo), elas de cabelo curto, eles de cabelo longo e óculos redondos, a imitar o actor Harold Lloyd, frequentavam as ruas e cafés de Ginza, discutindo autores ocidentais e literatura marxista, e dançando nos salões, com cigarros e cocktails, um pouco à imagem da Jazz Age Americana.
Uno viveu uma vida longa, como ela própria dizia: " Não tenho interesse em morrer, porque penso sempre que o amanhã pode trazer algo de excitante."
Ler também no Banzai: Estrelas no Céu de Tóquio

segunda-feira, 12 de abril de 2010

"HIDDEN UNDER THE LEAVES"

Há uma compilação, iniciada no século XVII no Japão, que reúne notas, considerações morais, histórias e anedotas, acerca dos samurais. O livro chama-se HAGAKURE o que significa "Escondido Debaixo das Folhas", porque era uma das virtudes dos samurais conservarem-se afastados do olhar público, não se exibindo desnecessáriamente, e salienta a necessidade do samurai estar sempre pronto a dar a sua vida a qualquer momento, porque, como aí é dito, nunca nenhum grande feito foi concluído sem loucura, ou por outras palavras, sem quebrar o nível comum do consciente deixando vir ao de cima os poderes mais ocultos. Esses poderes podem ser perigosos por vezes, mas não existe dúvida de que são supra-humanos e operam maravilhas. Quando o inconsciente é libertado, eleva-se acima das limitações humanas. A morte perde então toda a sua importância, e é aqui que o treino dos samurais dá as mãos ao Zen. 
Atingir uma "no-mind-ness", um estado de espírito em que a mente cesse todas as preocupações com a questão da vida e da morte, compreender que há algo em nós que não pode ser destruído nem pela água, nem pelo fogo, esse é o caminho do Zen - "when thoughts are quited down, fire itself is cold and refreshing...", e também o caminho do guerreiro.
Referências: "Zen and Japanese Culture", Daisetz T. Susuki

sábado, 10 de abril de 2010

Japão - Anos 60

Nos anos 60, o Japão continuava a operar um milagre económico. O número de empregados nas grandes cidades aumentava, e o nível de vida geral dava um salto qualitativo. Em 1964, organizava com sucesso os Jogos Olímpicos, exibindo uma capital, Tóquio, cujo traçado evidenciava já as linhas futuristas que a tornariam ímpar. Ao mesmo tempo, a sociedade agitava-se ao ritmo dos movimentos estudantis e do yé-yé.

Em 1966, Seijun Suzuki estreia o seu "Tokyo Drifter", mais uma paródia aos filmes de yakuza, do que uma celebração do género. Produzido em estúdio, o filme mistura diferentes elementos e géneros, com influências que vão desde a Pop Art aos musicais de Hollywood nos anos 50, da comédia ao surrealismo. É uma obra híbrida, considerada por alguns como um manifesto avant-garde dos anos 60. Aqui ficam música e trailer.


"Em 1969 tínhamos 17 anos. Ouvíamos os Beatles, os Stones, os Doors, os Velvet Underground, Grateful Dead, Cream, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Bob Dylan. Líamos Rimbaud, tocávamos guitarra, fumávamos erva, apaixonávamo-nos, revoltávamo-nos contra o sistema, protestávamos contra a Guerra no Vietnam, barricávamos os liceus e produzimos o primeiro festival rock na nossa terra natal - uma pequena cidade num remoto canto do Japão. (...)
O PODER Á IMAGINAÇÃO, foi o slogan que decidimos escrever na faxa, (...) um dos que Adama e eu tínhamos tirado duma colecção de graffiti do Maio de 1968 em Paris. (...)
Era divertido inventarmos os nossos próprios slogans. (...) Só nos faltavam uns chapéus cónicos de palha para nos parecermos com Basho e os seus amigos escrevendo haiku."
in "69", Ryu Murakami

sábado, 6 de março de 2010

TRAVELS IN ATOMIC SUNSHINE

É pouco conhecida a presença de cerca de 20.000 Australianos, na ocupação pós-guerra do Japão, fundamentalmente dominada pelas Forças Militares Americanas. Muitos permaneceram seis anos em Hiroshima, sendo afectados posteriormente com problemas de saúde relacionados com as radiações. As tensões raciais eram grandes, com as lembranças amargas da Guerra do Pacífico e dos campos de prisioneiros onde, nas mãos dos Japoneses, os soldados australianos tinham sofrido horrores, existia obviamente uma atitude de vingança face aos agora derrotados. Violações e ofensas, muitas vezes exacerbadas pelas doses abundantes de álcool, levaram os Japoneses a olhá-los como yabanjin (bárbaros). No entanto, apesar dos soldados que contraíssem doenças venéreas, ficarem sem a sua ração de cerveja durante 15 dias, muitos arriscavam a sua sorte com mulheres e raparigas locais, e se a maior parte destas relações era ocasional, houve alguns casamentos, apesar da atitude racista dos oficiais tentar impedir este género de laços. As mulheres Japonesas, pelo seu lado, eram, ao que parece, prevenidas pelas autoridades contra o perigo de "dar à luz cangurus".
De tudo isto, fala o livro de Robin Gerster, "Travels in Atomic Sunshine: Australia and the Occupation of Japan", à venda na Amazon.com.
O Banzai tem uma imensa curiosidade por relatos da II Guerra Mundial.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

RYU MURAKAMI

Sem metade da fama de Haruki Murakami, Ryu Murakami é, no entanto, um autor Japonês indispensável. "NA SOPA DE MISO", está publicado em Português pela Casa das Letras. Romance noir e violento, atravessando a noite de Tóquio, há quem o compare a "uma colaboração entre Stephen King e Michel Houellebecq com karaoke como pano de fundo". Os meus livros favoritos passam pela sua primeira e muito aclamada novela, "ALMOST TRANSPARENT BLUE" e "69", que eu saiba ainda não traduzidos aqui. O conhecido thriller de Takashi Miike, "AUDITION", foi baseado na obra homónima de Ryu Murakami.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

100 Masters of Bishojo Painting




100 ilustradores de Bishojo (beautiful girl), 500 trabalhos de mestres do mundo da ilustração digital: 100 Masters of Bishojo Painting, lançado pela editora japonesa BNN, parece-me um livro a não perder para os apreciadores. Infelizmente, não está disponível no meu recurso habitual, a Amazon, e o preço da Ebay, é tudo menos convidativo. As fotos no blog do otaku Danny Choo, estão fantásticas.

domingo, 24 de janeiro de 2010

My time as a Tokyo hostess

Mais um livro (que ainda não tenho) sobre o mundo surreal das "hostess" em Tóquio. Escrito por uma modelo canadiana que tinha 20 anos e esperava um emprego fácil, divertido e muito rentável, acabando por se perder, como quase todas, numa rotina de álcool, drogas e "late nights". Chelsea Haywood não foi a única. Lea Jacobson, americana, oferece no seu "Bar Flower: My Decadently Destructive Days and Nights as a Tokyo Night Club Hostess", um retrato fantástico da cultura Japonesa e do seu "underworld".

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Estrelas no céu de Tóquio







No Japão feudal, a tradição e a lei, ditavam uma condição feminina submissa e dependente. Uma mulher casada, podia ser presa se acusada de adultério. A Restauração Meiji de 1868, introduziu os conceitos ocidentais de liberdade e igualdade, com óbvias repercussões políticas, sociais e culturais. No ínicio do século XX, algumas mulheres Japonesas, tiveram a coragem de desafiar, através do modo de vida, dos amores e da arte, as convenções sociais, influenciando largos sectores da população ao mesmo tempo que alarmavam os defensores do status quo. Algumas, sobretudo as pioneiras, pagaram a sua audácia com ostracismo e pressões diversas que as levaram à pobreza, à doença mental ou ao suícidio. Matsui Sumako, foi a primeira actriz de teatro Japonesa a representar ao estilo ocidental. As suas criações da Nora de Ibsen ou da Salomé de Oscar Wilde, causaram tempestades tão grandes como a sua vida amorosa. A 5 de Janeiro de 1919, depois de voltar a casa no fim dum espectáculo, escreveu algumas cartas, depositou duas fotos suas junto às do seu falecido amante no altar Budista, e depois de se maquilhar cuidadosamente, enforcou-se. A pintora Takamura Chieko, morreu num asilo para doentes mentais. A escritora Yanagiwara Byakuren, que tinha laços de parentesco com a Família Imperial, foi ameaçada por forças políticas de extrema direita e pela própria família, que a manteve longo tempo em clausura, antes de poder refazer a sua vida junto do homem que tinha escolhido. Teve a coragem de abandonar tudo e denunciar publicamente, numa carta ao marido, publicada num jornal de Osaka, a sua vida infeliz, as traições conjugais, assumindo o seu amor por outro homem e pedindo o divórcio. Já mais tarde, a novelista Uno Chiyo e a actriz de cinema Takamine Hideko, tiveram melhor sorte, podendo viver vidas longas e produtivas.
É a história destas cinco mulheres, glamorosas, inteligentes, rebeldes e talentosas que nos conta a escritora e colaboradora do The New Yorker, Phyllis Birnbaum, no livro "Modern Girls, Shining Stars, the Skies of Tokyo". Tenho pena que não esteja publicado em Português, mas como já devem ter percebido, se contasse só com a língua materna, o Banzai já tinha encerrado para meditação zen.
A foto de baixo é de Matsui Sumako, as outras, respectivamente de Uno Chiyo, Takamine Hideko e Chieko. De Byakuren, não constam imagens na internet, mas era lindissima.

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