"Burial in the Clouds" assinado por Hiroyuki Agawa, desfaz completamente a imagem dos kamikaze como um bando de fanáticos, de lenços atados à volta da testa, a lançarem-se para a morte alegremente dando vivas ao Imperador. Nesta novela histórica apresentada em forma de diário de guerra, um jovem estudante universítário apaixonado por filosofia e poesia, é levado como muitos outros companheiros a alistar-se na marinha Imperial, sendo treinado como piloto de combate e finalmente transferido para as Forças Especiais de Ataque, os tokkotai ou kamikaze. Os dilemas e contradições sentidos por esses jovens, são bem patentes na passagem que vou traduzir aqui. Uma carta a um antigo professor, comovente e reveladora do estado de espírito de quem, na flor da idade, se vê na iminência duma morte que não escolheu e para a qual não consegue encontrar uma motivação racional.
"Professor E.
Os nossos treinos de voo têm estado parados faz já algum tempo devido á escassez de combustível. Por um momento, quase esperei que as coisas continuassem assim, quem sabe a guerra pudesse terminar súbitamente enquanto estávamos simplesmente a abrir buracos ou qualquer coisa como essa, sem que tivesse que me preocupar mais. Contudo, a realidade não é assim tão fácil. Fomos finalmente compelidos a voluntarizarmo-nos para a força especial de ataque. Os voos começam depois de amanhã. Vamos utilizar combustível de álcool, um tipo de combustível perigoso, que deixa de funcionar se a temperatura no interior dos cilindros baixar, fazendo com que os propulsores parem a meio do voo.
O público em geral parece pensar que só os mais corajosos, possuidores de inquestionável lealdade, se oferecem como voluntários para a força especial de ataque, mas isso foi apenas uma fase inicial (...). A decisão parece ostensivamente voluntária, mas falando em termos psicológicos é pura coerção.(...) Tenho muito poucas hipóteses de sobreviver continuando neste caminho. Assim, estou a considerar uma medida extrema para salvar a minha vida e só a minha vida. É tudo aquilo em que penso, noite e dia. Professor, por favor não me reprove por ser egoísta, a não ser que verdadeiramente queira que eu me esmague contra o inimigo ao lado dos meus camaradas.(...)
Pensei em vários métodos. (...) Assim, comecei a dar forma aquilo que já estava vagamente na minha cabeça desde que iniciei os meus treinos de piloto. Estou a pensar fazer uma aterragem forçada numa ilha, durante uma missão de ataque especial. A partir de agora as nossas saídas devem ser dirigidas principalmente para as ilhas Ryukyu ou a área á volta da Formosa. Como sabe, há uma série de pequenas ilhas pelo caminho, ilhas com poucos habitantes e comunicações escassas. Ou talvez uma ilha deserta sirva, dependendo das circunstâncias. Então, tenho estado a recolher mapas das ilhas Ryukyu e a ler histórias tipo "Robinson Crusoe", estudando todas as partes que possam mostrar-se úteis.
Vou descolar procedendo como de costume, até chegar perto da ilha escolhida, e aí simulo uma avaria no motor. Primeiro, afasto-me da minha formação e largo a bomba. Depois, pego na almofada espessa do assento e encosto-a ao painel de instrumentos para proteger a minha cabeça do impacto. Finalmente, com o meu cinto seguramente apertado, fecho o combustível e lanço a cauda do avião na água com o trem de aterragem puxado. Escusado será dizer que o avião vai ficar em pedaços e pode acabar de nariz enfiado na água. Mas, nunca afundará imediatamente, dando-me tempo para desapertar o cinto e escapar. Depois disso, devo poder nadar até á ilha. Contudo, acontece uma coisa estranha. Á medida que focalizo a imagem da minha fuga, uma certa sensação indefenível de vazio invade a minha mente. Não sei bem como explicar isto, mas suponha que eu, de alguma forma consigo sobreviver na ilha. Ali estou eu, passando os dias a pescar ou qualquer coisa assim, quando de repente, vejo um destacamento da força especial por cima de mim, os meus camaradas, rugindo sobre as nuvens, rumo ao sul. E depois que eles se forem, permanece apenas o céu, absurdamente brilhante e tranquilo (...). Tanto quanto posso dizer, não é que a minha consciência esteja a incomodar-me, porque o que tenciono fazer é cobardia, e também não é um medo da solidão. (...) Se não podemos aceitar esta guerra, se estamos decididos a tomar um caminho diferente e a observar a morte dos nossos amigos perante os nossos olhos, isto é uma agonia."
"The clouds are my tomb
Setting sun grace my epitaph"
in, Burial in The Clouds, Hiroyuki Agawa
A foto não corresponde à personagem descrita. Foi tirada por mim no interior do museu do Yasukuni, tal como a foto dos soldados no post anterior.