domingo, 1 de agosto de 2010

OS POÇOS DE MARTE

Esta história diz respeito a um jovem que desceu a um das miríades de poços que existiam na superfície de Marte. Estes poços pareciam datar de há dezenas de milhares de anos, mas a coisa mais estranha é que foram cuidadosamente escavados de forma a evitar tocar em qualquer veio de água. Ninguém tinha uma ideia da razão porque tinham sido escavados. E de facto, os Marcianos não deixaram nada para trás além destes poços. Nem escrita, nem habitações, nem cerâmica, nem metal, nem túmulos, nem foguetões, nem sequer ruas. Apenas poços. Todos eles deixando os Terrestres de certa forma confusos. Poderia de facto isto ser chamado uma civilização? Embora tivessem que admitir que eles tinham sido concebidos com engenho (...).
Claro que muitos exploradores tentaram descer os poços. Mas eram tão profundos e as paredes tão longas que aqueles que se seguraram com cordas tiveram que voltar para trás. Daqueles que dispensaram as cordas, nenhum regressou.
Um dia, um jovem vagabundo do espaço, resolveu tentar a sua sorte. Estava cansado da vastidão do espaço e queria morrer onde ninguém o pudesse encontrar. Contudo, quanto mais profundamente descia, mais leve o seu coração se sentia. Uma espantosa energia envolvia o seu corpo. A certa altura, entrou por um túnel lateral e seguiu indiferente o seu curso sinuoso. Perdeu a conta a quanto tinha andado. O seu relógio parou durante o percurso. Talvez tivessem passado duas horas, talvez dois dias. Não sentia fome nem fadiga. Somente aquela misteriosa energia que desde o início o envolveu.
Então, num certo ponto, sentiu um raio de luz. O túnel tinha conduzido a outro poço, que ele de algum modo conseguiu subir, voltando à superfície do planeta. Sentado na beira do poço estendeu o olhar pela vastidão do deserto Marciano, depois pelo sol. Alguma coisa estava diferente. o cheiro da brisa, o sol...O sol estava ainda alto no céu, mas era uma gigantesca bola laranja da cor do pôr do sol.
"Daqui a 250.000 anos o sol explodirá..." susurrou-lhe a brisa. "Oh, não te importes comigo" continuou a voz. "É só o vento. Podes-me chamar um Marciano se quiseres. As palavras são menos do que nada para mim."
"Mas estás a falar."
"Eu? És tu quem fala. Eu só deixo pedaços de pensamentos na tua cabeça."
"E o sol? O que é que aconteceu ao sol?"
"Envelheceu. Está a morrer. Não há nada que possamos fazer."
"Mas porquê tão subitamente...?"
"Não foi assim tão súbito. Demoraste muitos anos no teu caminho pelos túneis. A tua espécie tem um ditado. O tempo voa como uma flecha. As passagens entre os poços que atravessaste, foram escavadas de forma a contornar a curva do tempo. Sabes, nós somos viajantes através do tempo - desde o nascimento do universo até à sua morte. Nós somos os ventos."
"Tenho então uma pergunta, se puder..."
"É um prazer."
"Aprenderam alguma coisa?"
O ar tremeu por instantes, uma gargalhada na brisa. E mais uma vez, o eterno silêncio desceu na paisagem Marciana.
 O jovem... tirou uma pistola do bolso, apontou-a ás têmporas e premiu o gatilho.
Tradução minha dum excerto do primeiro romance do escritor Japonês HARUKI MURAKAMI, "KAZE NO UTA O KIKE" (HEAR THE WIND SING).

13 comentários:

cantinho she disse...

Adoro esses seus posts, beijo, beijo e excelente semana Querida!

Meri Pellens disse...

Essa história nos ensina como o tempo é precioso, e como muitas vezes o perdemos vagando por poços túneis se fim. Excelente!
Beijos na alma, amiga!

Selena disse...

Margarida!!!

Mal tenho palavras...quando diz do vento, da brisa, do tempo...e ele existe?! Pra mim, tempo não existe! Fomos nós quem os criamos, o homem! hhi

Lindo, lindo texto, nem vou falar mais nada!
Obrigada por surpreender a cada dia!

Beijo de luz e uma semana brilhante!
\o/

Nilce disse...

Oi, minha amiga querida

Bom seria tê-la ao meu lado.
Hj já choveu por toda madrugada e dia e esfriou um pouco.

Muito interessante o texto. Que viagem...
Concordo com a Meri que o tempo é muito precioso. Mas, por muitas vezes roubam-nos ele.

Assim que der mando-lhe um e-mail.

Bjs no coração!

Nilce

Felipe Nasca disse...

Esse texto foi lindo... e como a maioria dos textos japoneses com que tive contato, tem um final inquietante!

Lívia Azzi disse...

Nós queremos fazer tudo ao mesmo tempo, o que é impossível, não podemos controlar o tempo. O que podemos fazer é definir prioridades entre desejos e necessidades e buscar equilibrar essa dosagem...

Vamos tentando...

Beijos e uma linda semana!!

rouxinol de Bernardim disse...

Sensibilidade e sabedoria mescladas com mestria.
Gosto muito de aqui vir e saborear estes belos nacos de prosa...

ESpeCiaLmente GaSPaS disse...

Fantástica história :)

Denise disse...

Oi querida, fantástico esse texto, para refletirmos e aproveitarmos cada minuto precioso da vida.
Bjinhos carinhosos

disse...

Minha querida Margarida. Estava viajando na viagem. Tenho saudades de ficar por aqui. Volto em breve, muito breve. Bjos no coracão!

lu http//:minha-distraçao.blogspot.com/ disse...

Oi Querida,obrigado pela visita estou bem melhor.
Margarida que texto maravilhoso,
Saber valorizar a
vida a cada segundo é muito importante ela é um presente de Deus não podemos perder tempo,tem tantas coisas lindas pra se ver e para fazer.
Beijo Lu

Fernanda disse...

Margarida! Sweet friend of my mine!
I'm not sure I'm happy :(((

Adorei o conto, tudo, o que ele nos ensina...
Sei bem que o sol envelhecerá e que a Humanidade só aprendeu a destruir o Planeta!!!
Que o tempo é um bem precioso que se desperdiça, muitas vezes, vezes demais.. a atravessar pontes e túneis e poços profundos cavados inexplicavelmente...
What a waste of time and energy!
But tell me! Why did he have to shot himself?
That is a very sad ending :((((

Beijos e abraços

Michelle Lynn disse...

Que texto incrível.
Como sempre aprendendo um pouquinho mais nos seus textos... vagar por túneis que nos levam a lugar algum, desperdiçando o nosso tempo que é tão pouco...
Te adoro muito...
Mi

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