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terça-feira, 23 de março de 2010

LOST IN TRANSLATION - IV

Quando os leitores do Banzai nem sequer completavam os dedos duma mão, escrevi uma série de três artigos sobre as nuances e subtilezas da língua Japonesa, tendo como fonte as reflexões de John David Morley num dos meus livros de eleição: "Pictures From The Water Trade - The extraordinarily evocative, at times erotic, story of an Englishman's discovery of Japan". Agora, quis por um lado, voltar ao assunto, por outro, que esses posts fossem lidos por mais gente ( e eventualmente comentados).
A língua Japonesa, é rica em fórmulas ou padrões convencionais de discurso, para enfrentar qualquer situação do dia a dia, aos quais é difícil fugir. Boon, sendo hóspede em diversas uchi (casas japonesas), viu o seu estudo dos padrões de discurso na vida doméstica facilitado.
"Uma pessoa que sai de casa, por exemplo, dirá itte kimasu! (I go and come), gerando a resposta gnóstica itte'rasshai! (Then go and come)...Alguém voltando a casa, gritará tadaima! ( just-presumivelmente uma contracção de I have just got back), a que os presentes replicam com o coro lacónico de o-kaeri nasai! (Return!) num tom que lembrava a Boon uma prece. (...) Não havia outras alternativas. Para alguém que saísse ou voltasse a casa eram estas as palavras ou mais nenhumas, e na experiência de Boon, não eram só algumas pessoas que ás vezes as diziam, mas todas as pessoas, sempre. Isto tocou-o como sendo um facto remarcável. Os livros dedicados ás crianças nos primeiros anos de escola ilustravam bem esta natureza "formulaic" da linguagem. Havia fórmulas que determinavam como uma carta deveria começar, por norma indagando do estado de saúde do destinatário, pergunta que era logo seguida por considerações acerca do estado do tempo, existindo para cada estação, e até para cada mês, uma fórmula adequada. Boon encontrou essas mesmas frases em cartas escritas por representantes de três gerações."
Para os posts antigos sobre o assunto, ver etiqueta abaixo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

LOST IN TRANSLATION-III


Este uso ambíguo da linguagem é conhecido em Japonês por aimai, gozando duma certa tradição.
Durante os 250 anos de governo autocrático sob o shogunato Tokugawa (1603-1867) e sem dúvida nos séculos de guerra civil que precederam o primeiro shogun Ieyasu, a vida era de forma geral curta e violenta, mas provavelmente menos curta e menos violenta, para quem sabia manter a boca fechada Há imensos provérbios japoneses exaltando as virtudes do silêncio. Por sua vez, a casta de guerreiros, os samurais, destacava-se pelo seu espírito taciturno e enorme sangue-frio. Ditados como "a defeated warrior does not speak" ou "sannen kata-ho", significando que um guerreiro, não deve permitir-se mostrar as suas emoções mais do que uma vez em três anos, eram frequentemente citados a Boon com uma aprovação que mostrava que ainda lhes era reconhecido valor.
É verdade que historicamente, os Japoneses não puderam verdadeiramente usufruir duma liberdade de expressão sem restrições, senão depois da Segunda Guerra Mundial. Assim, numa sociedade onde podia ser perigoso dizer o que se pensava sem equívocos, o engenho Japonês respondeu com o aimai, que permite que se comunique e se seja percebido, sem, no entanto, ser explícito em nenhuma ocasião.
A grande objecção de Boon, é que apesar do contexto repressivo ter terminado há muito, o fenómeno do aimai continuaria a existir.
Eu penso que o aimai está presente nos arquétipos das mentes japonesas, mesmo quando se expressam noutra língua e talvez daí a sua relutância em fazê-lo, receando que possam dizer para além do que querem dizer.
No filme que emprestou o título a estes posts do Banzai, nas filmagens de um anúncio, o realizador discursa empolgado durante um longo tempo, supostamente dando indicações de cena ao actor, um Bill Murray com expressão puzzled, que espera pela tradução da intérprete. Esta, visivelmente pouco à vontade, resume tudo numas três palavras.
Vi isto acontecer, em conversas com amigos japoneses, um concílio acerca duma questão mais sensível, em que obviamente, dominando apenas os básicos da língua, se fica de fora. E depois um simulacro de resposta, uma frase curta e hesitante semeada de "Eto...", uma daquelas palavras satélites, que não querem dizer absolutamente nada.
O aimai existe para nos lembrar que, apesar da nossa estante se encher de Murakamis, Tanizakis, Sosekis, Kenzaburos, ou mesmo escritores mais estritamente japoneses como Osamu Dazai ou Nagai Kafu, apesar de a nossa aparelhagem passar melodias japonesas, apesar de termos visto todos os filmes do Ozu, apesar de repetirmos a sopa de miso e todos os dias enchermos a nossa chawan de matcha, apesar de calçarmos tabi, apesar de visitarmos respeitosamente o Yasukuni Shrine, apesar de tudo isso, nunca seremos japoneses.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

LOST IN TRANSLATION-II

Ainda recém chegado ao Japão, Boon encontra num restaurante um jovem japonês. Sendo os dois os únicos clientes, acabam por estabelecer uma conversa trivial. A certa altura, Boon, coloca-lhe uma questão directa:
"Boon: Have you got any brothers or sisters?
Man: Do you mean me? ( Touching his nose. )
Boon: Well, there's nobody else in here. ( laughter from Boon not shared by the young man )"
Este episódio confundiu verdadeiramente Boon, que dele tomou nota no seu livro de curiosidades. Seria o jovem surdo ou neurótico? Mas, seis meses depois, tinha ouvido a mesma questão retórica em situações similares, colocada por dezenas de pessoas claramente nem surdas, nem neuróticas. Isso acontecia quando chamados a responder a uma questão pessoal, ou a indicar a sua preferência ou opinião sobre um assunto em discussão. De uma forma ou outra, a questão, singularizando-os, desafiava-os a destacarem-se rompendo a simbiose com o colectivo, e isso, era encarado com relutância.
"The framing of questions in Japanese was an art, an instrument to be handled with great delicacy and care."
A pergunta japonesa tipíca, é aquilo que em tribunal se considera como sugestivo, cheia de brechas e possíveis escapatórias e, tão afastada do que entendemos por uma questão quanto possível.
O facto de o sujeito ser omisso em quase sessenta por cento das frases em japonês, pode talvez ser lido em termos similares.
Curiosamente, encontrei nas minhas pesquisas o blog de alguém a quem foram úteis as reflexões de Morley, para consolidar uma relação com uma japonesa: "(...) I put Morley into practice with a diffident vengeance: shying away from any attempt at precision, using qualifiers like "perhaps", "maybe" or "apparently"; omitting the subject of a sentence, or the verb, speaking, in effect, a kind of ethereal English that mimicked the oblique, tentative quality of spoken Japanese. And the wonderful paradox was that the vaguer my speech, the more definite Ayako´s affections became."

terça-feira, 27 de outubro de 2009

LOST IN TRANSLATION - I

No seu livro " Pictures From The Water Trade ", publicado em 1985, John David Morley, leva-nos através dos olhos e da voz do seu alter ego, Boon, numa jornada de descoberta e reflexão sobre a vida social no Japão com as suas nuances, enigmas, ecos e sombras.
Morley/Boon, estuda Japonês na Universidade de Waseda em Tóquio, mas é necessário algum tempo para que descubra a cosmologia das palavras satélite e sons diversos que circunscrevem uma frase em Japonês sem um sentido ou propósito aparente. Antes de aprender a falar é necessário adquirir a arte do preâmbulo, tentativo, oblíquo, e anterior a este uma série de sons antecipatórios indicando dúvida, concordância, encorajamento, atenção, ou o que quer que seja que a postura pré-discurso requeira. Uma sobrancelha erguida, um dedo acusador, um rosto onde se lê emoções, tudo isto seria demasiado explícito, perturbando o delicado balanço de ambiguidades tão querido dos japoneses. Um som vindo do fundo da garganta, os lábios fechados ou apenas entreabertos, é menos intrusivo do que o gesticular das mãos, que viola, eventualmente, fronteiras invisíveis e muda sem aviso as configurações em que os falantes se dispõem. Os japoneses parecem apreender o significado do que é dito pela maneira como foi dito.
Boon, sente que é aceite como falante da língua, somente à medida em que, aos seus próprios ouvidos, se torna progressivamente inarticulado.
"They appeared to mistrust eloquence." reflecte Boon, ao mesmo tempo que aponta para uma crença endémica Japonesa nas vantagens de ser vago, de deixar as coisas implícitas em vez de, sendo totalmente claro, assumir responsabilidade por qualquer tipo de consequências.
"Men who were naturally fluent cultivated rethorical penury, a shambling, diffident mode of speech, as the best recommendation for integrity and shrewd judgement."

Post Scriptum: Esta série de posts sobre a problemática da linguagem, é dedicada à Ana, aka Pukinha, minha única seguidora desde o início, e uma das escassas almas que lê o Banzai.

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