domingo, 20 de junho de 2010

The Clouds Are My Tomb....

"Burial in the Clouds" assinado por Hiroyuki Agawa, desfaz completamente a imagem dos kamikaze como um bando de fanáticos, de lenços atados à volta da testa, a lançarem-se para a morte alegremente dando vivas ao Imperador. Nesta novela histórica apresentada em forma de diário de guerra, um jovem estudante universítário apaixonado por filosofia e poesia, é levado como muitos outros companheiros a alistar-se na marinha Imperial, sendo treinado como piloto de combate e finalmente transferido para as Forças Especiais de Ataque, os tokkotai ou kamikaze. Os dilemas e contradições sentidos por esses jovens, são bem patentes na passagem que vou traduzir aqui. Uma carta a um antigo professor, comovente e reveladora do estado de espírito de quem, na flor da idade, se vê na iminência duma morte que não escolheu e para a qual não consegue encontrar uma motivação racional.
"Professor E.
Os nossos treinos de voo têm estado parados faz já algum tempo devido á escassez de combustível. Por um momento, quase esperei que as coisas continuassem assim, quem sabe a guerra pudesse terminar súbitamente enquanto estávamos simplesmente a abrir buracos ou qualquer coisa como essa, sem que tivesse que me preocupar mais. Contudo, a realidade não é assim tão fácil. Fomos finalmente compelidos a voluntarizarmo-nos para a força especial de ataque. Os voos começam depois de amanhã. Vamos utilizar combustível de álcool, um tipo de combustível perigoso, que deixa de funcionar se a temperatura no interior dos cilindros baixar, fazendo com que os propulsores parem a meio do voo.
O público em geral parece pensar que só os mais corajosos, possuidores de inquestionável lealdade, se oferecem como voluntários para a força especial de ataque, mas isso foi apenas uma fase inicial (...). A decisão parece ostensivamente voluntária, mas falando em termos psicológicos é pura coerção.(...) Tenho muito poucas hipóteses de sobreviver continuando neste caminho. Assim, estou a considerar uma medida extrema para salvar a minha vida e só a minha vida. É tudo aquilo em que penso, noite e dia. Professor, por favor não me reprove por ser egoísta, a não ser que verdadeiramente queira que eu me esmague contra o inimigo ao lado dos meus camaradas.(...)
Pensei em vários métodos. (...) Assim, comecei a dar forma aquilo que já estava vagamente na minha cabeça desde que iniciei os meus treinos de piloto. Estou a pensar fazer uma aterragem forçada numa ilha, durante uma missão de ataque especial. A partir de agora as nossas saídas devem ser dirigidas principalmente para as ilhas Ryukyu ou a área á volta da Formosa. Como sabe, há uma série de pequenas ilhas pelo caminho, ilhas com poucos habitantes e comunicações escassas. Ou talvez uma ilha deserta sirva, dependendo das circunstâncias. Então, tenho estado a recolher mapas das ilhas Ryukyu e a ler histórias tipo "Robinson Crusoe", estudando todas as partes que possam mostrar-se úteis.
Vou descolar procedendo como de costume, até chegar perto da ilha escolhida, e aí simulo uma avaria no motor. Primeiro, afasto-me da minha formação e largo a bomba. Depois, pego na almofada espessa do assento e encosto-a ao painel de instrumentos para proteger a minha cabeça do impacto. Finalmente, com o meu cinto seguramente apertado, fecho o combustível e lanço a cauda do avião na água com o trem de aterragem puxado. Escusado será dizer que o avião vai ficar em pedaços e pode acabar de nariz enfiado na água. Mas, nunca afundará imediatamente, dando-me tempo para desapertar o cinto e escapar. Depois disso, devo poder nadar até á ilha. Contudo, acontece uma coisa estranha. Á medida que focalizo a imagem da minha fuga, uma certa sensação indefenível de vazio invade a minha mente. Não sei bem como explicar isto, mas suponha que eu, de alguma forma consigo sobreviver na ilha. Ali estou eu, passando os dias a pescar ou qualquer coisa assim, quando de repente, vejo um destacamento da força especial por cima de mim, os meus camaradas, rugindo sobre as nuvens, rumo ao sul. E depois que eles se forem, permanece apenas o céu, absurdamente brilhante e tranquilo (...). Tanto quanto posso dizer, não é que a minha consciência esteja a incomodar-me, porque o que tenciono fazer é cobardia, e também não é um medo da solidão. (...) Se não podemos aceitar esta guerra, se estamos decididos a tomar um caminho diferente e a observar a morte dos nossos amigos perante os nossos olhos, isto é uma agonia."
"The clouds are my tomb
Setting sun grace my epitaph"
in, Burial in The Clouds, Hiroyuki Agawa

A foto não corresponde à personagem descrita. Foi tirada por mim no interior do museu do Yasukuni, tal como a foto dos soldados no post anterior.

14 comentários:

José Sousa disse...

Hei!!! Que beleza o seu blog. Gostei e gosto do que escreve. Vou ser seu seguidor, seja meu também em: www.congulolundo.blogspot.com
www.queriaserselvagem.blogspot.com

Um grnde abraço do tamnho do mundo

Betty Gaeta disse...

Oi Margarida,
É uma carta comovente. Sempre achei que kamikases eram herois, mas agora vejo que realmente eram herois, pois os herois têm dúvidas, só os insanois são totalmente certos de seus atos, ainda mais se os atos incluem ceifar vidas.
Eu não tenho ideia do preço do anel em euros, apenas em dólares. Vou ficar devendo esta informação.
Bjkas e uma ótima semana para vc.

"Hamilton H. Kubo - Profundo Pensar" disse...

Interessante, como pouco sabemos dos guerrilheiros das guerras.
Muito bem observado Margarida, pois no ápice da guerra poucos consideram que todos tem alma, objetivos e almejam algo.
Meus parabéns e claro meu muito obrigado por mais este ensinamento do passado.

Beijos querida!

ONG ALERTA disse...

História á para ser conhecida, paz.
Beijo Lisette

Denise disse...

Uau, que post incrível Margarida, fiquei sensibilizada com a carta.

Aproveitando, gostaria de passar uma receita de sobremesa muito gostosa para se apreciar no verão, com sagu, conhece? São aquelas bolinhas de mandioca que utilizamos em sobremesas e bebidas. Aqui apreciamos comprar da marca Hikari ou Yoki.

Sagu de frutas
Ingredientes
- meio pacote de sagu (250 gramas)
- 1 lata de leite condensado
- 1 lata de creme de leite
- 3 maracujás (só o suco)
- 2 mangas
- 3 maçãs
- 1 caixa de morangos (opcional)
- 2 bananas (opcional)

Cozinhe o sagu com 10 copos de água fervente, sempre mexendo ao fogo para não grudar ao fundo da panela até ficar transparente e reserve.

Com o sagu esfriado, coloque o leite condensado e creme de leite com o suco de maracujá.

Corte as frutas em pedaços pequenos e misture no sagu.

Sirva gelado, a sobremesa serve para 6 pessoas.

Bjs!

disse...

Margarida, esse seu post ensina com a morte uma grande lição por vida! Bjos e uma semana de muitas alegrias!!!

Michelle Lynn disse...

Estou sem palavras. A carta é comovente.

Lembrou-me muito o post anterior, ele sabia que iria morrer de qualquer jeito: literalmente, fazendo o que fora treinado; ou por dentro, em uma ilha deserta.

Sentimentos como medo, solidão, covardia, lealdade, respeito... tudo muito confuso e misturado.
Saber que vai morrer deve ser angustiante e dessa forma tão injusta deve ser pior ainda.

Você tem razão, vendo por esse ângulo, perdemos a visão estereotipada dos kamikases e percebemos que antes de tudo são pessoas comuns como nós, que deixa para traz sonhos, familia e uma vida que poderia ter siso bem diferente.

Um grande abraço, Margarida!

Ester disse...

Cara Margarida,
Nem posso imaginar esse vazio na mente que um kami possa sentir..parecem tão vulneráveis!

Essa carta é de tanta tristeza e o templo parece lindo, mas tb triste ao mesmo tempo...ver crianças no meio do absurdo de guerra...os kami que deram suas vidas pelo imperador, enfim os criminosos de guerra...não sei se eu entraria pra visita-lo...
Post sensacionais todos 2!!

andreia inoue disse...

fiquei com um no na garganta na medida que lia a carta do soldado,
antes eu nao entendia o pq que eles aceitavam ser kamikase.
A medida que a gente vai se aprofundando na historia deles eh que vamos compreendendo as angustias e sofrimentos pelos quais eles passaram.E que eh uma decisao que estava acima da vontade deles,afinal aqui existe a obediencia cega e o respeito as ordens superiores.

E querida,fiquei muito feliz com o oferecimento do livro,agradeco de coracao mesmo,mais nao poderei aceitar,nao domino o ingles a ponto de ler o livro e seria egoismo meu aceitar para deixa-lo na estante.
E pesquisei sim sobre ela,desde o inicio do ano que a tv japonesa tinha dado destaque a historia,quase todo dia na hora do almoco eu via as noticias.
um beijao e muito obrigada e espero que vc nao leve a mal a recusa,um beijaooo.

Ângela disse...

Margarida, ainda não li o post, só passei para desejar uma ótima semana, volto com calma.
vc. esta no meu coração, pensei muito em vc. com a perda de Saramago.
beijokas e boa semana.

Nilce disse...

Oi, amiga querida

Vc sabe da minha dificuldade em digitar. Estou lendo todos os posts de quem eu sigo, mas não pude deixar de comentar aqui.

Espetacular. Herói é isso, tem coração. Covardia é outra coisa.

Bjs no coração!

Nilce

Meri Pellens disse...

Querida, vim te desejar uma ótima semana e agradecer seu carinho. Beijos na alma!

Betty Gaeta disse...

Oi Margarida,
Vc me acostumou mal e eu vim ver se tinha post novo...
Bjkas e boa noite.

Fernanda disse...

Querida Daisy! Sweet Lolipop!

Muito comevente e lindo o testemunho deste jovem; mais um que foi empurrado para onde não queria e tinha plena consciência da mesqinhez e brutalidade que lhes eram impostas.
Seguramente muitos pensariam o mesmo, felizmente este escreveu e deixou que o seu pensamento fosse conheciso no Mundo inteiro.
Oxalá tenha sobrevivido, para mim ficou implícito que sim...
Será???!!!

Love your texts!
Hugs.

Na Casa do Rau

PS.
Não recebi e-mail teu - manda para nafer1951@gmail.com.

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