"(...) We are keenly aware of the inmost feelings of all ye, Our subjects. However, it is according to the dictates of time and fate that We have resolved to pave the way for a grand peace for all generations to come by enduring the unendurable and suffering what is insufferable. (...) Having been able to safeguard and maintain the structure of the Imperial State, We are always with ye, Our good and loyal subjects. (...) Let the entire nation continue as one family from generation to generation, ever firm in its faith of the imperishableness, of its divine land (...)."
A 15 de Agosto de 1945, a voz do Imperador era ouvida pela primeira vez pelo povo Japonês, no seu discurso de rendição, transmitido pela rádio. Num Japonês formal e arcaico, como o que era usado na antiga Corte Imperial, Hirohito, pedia aos seus súbditos que "suportassem o insuportável", nunca fazendo, no entanto, nenhuma referência directa á rendição. A linguagem usada, e a fraca qualidade da transmissão, o discurso tinha sido préviamente gravado, contribuiram para que muitos não o entendessem. Na ficção de David Peace, Tokyo Year Zero, este facto é referido:
"It is over and now there is silence, only silence, until the boiler-man asks, "Who was it on the radio?"
"The Emperor himself", says Fujita
"Really? What is he saying?"
"He was reading an Imperial Rescript."
"But what was he talking about? asks the boiler-man and this time no one answers him, no one until I say-
"It was the end of the war..."
"So we won...?"
Mas, a expressão "suportar o insuportável", não podia ser mais adequada. Em Novembro de 1945, a morte e a fuga tinham reduzido a população de Tóquio a 3,5 milhões, na maioria enfraquecidos pela fome. Um quarto de milhão de residentes tinha morrido. Três quartos de milhão de casas foram arrasadas. Três milhões de pessoas não tinham abrigo. Duas bombas atómicas tinham reduzido a cinzas Hiroshima e Nagasaki. E apenas se iniciavam os anos de ocupação... Os deuses tinham voltado as costas aos deuses, e o Imperador renunciava á sua condição divina.
No filme de Alexander Sokurov, "The Sun", o realizador traça o retrato dum homem que, despojado do seu poder, se depara com a sua condição humana, demasiado humana. No seu primeiro encontro com o General MacArthur, Hirohito despede-se, ficando parado de forma desajeitada, em frente à porta fechada do aposento. O "deus", nunca tinha aberto uma porta por ele próprio...