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quinta-feira, 10 de março de 2011

UMA LENDA JAPONESA

Esta é mais uma das muitas lendas recolhidas no Japão pelo Português Venceslau de Moraes. Como ele prório dizia..."Aí vai outra história da carochinha..."
Em tempos antigos, vivia feliz um casal já idoso, cuja única alegria consistia num engraçado cãozito.
Uma vez, lembram-se os velhos de cavar a terra no sítio onde o cãozito havia raspado antes com as patas e ali acharam uma enorme quantidade de ouro. Ao lado deles viviam duas más pessoas, que, sabedoras da fortuna dos vizinhos, quiseram ter o mesmo benefício e decidiram pedir-lhes emprestado o cão. Lá o levaram, o bicho negava-se a raspar a terra com as patas, obrigaram-no então, tendo depois cavado bem no sítio, mas só encontraram porcarias. Furiosos, mataram o cão e foram enterrá-lo  junto a um pequeno pinheiro à borda da estrada.
Ora o pinheiro, pôs-se a crescer de maneira descomunal, e o bom velho cortou-o e fez dele um almofariz, destes que se usam para pilar o arroz. Quando lhe deitava qualquer grão para pilar, o bago saía do almofariz em grande abundância, dando-lhe em troco bem mais do que ele tinha posto. O mau velho, então, sempre invejoso e ciumento, pediu ao vizinho que lhe emprestasse o almofariz, mas ao servir-se dele este desfez-se em pedaços. Atirou-o ao fogo e queimou-o. O bom velho arrecadou as cinzas e descobriu que lançando-as sobre as árvores secas, elas começavam a florir...

Excerto adaptado  da lenda "O velho que faz florescer as árvores secas" in "Fala a lenda Japonesa", Wenceslau de Moraes


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A LENDA DO MANEKI-NEKO

Quando iniciei o Banzai, tinha uma mascote...um Maneki-Neko. Era um gatinho dourado que acenava para cima e para baixo com uma das suas patinhas, um ex-libris de que muito me orgulhava. Um dia abri o blogue e a gif tinha desaparecido. Fiz de tudo, mas nunca o consegui recuperar. Nem igual, nem tão bonito.
 Esses gatinhos são comuns no Japão. Há muitas histórias sobre a sua origem, mas aqui fica uma das minhas preferidas.
No início do período Edo, no local onde fica hoje o Gotokuji em Tóquio, havia um pequeno templo, onde vivia um monge muito pobre acompanhado do seu gato, de nome Tama. Um dia, um nobre que voltava duma caçada, foi apanhado pela chuva ali perto e abrigou-se debaixo duma árvore. Após um momento, os seus olhos detiveram-se num gato sentado na entrada do templo, acenando-lhe como se o convidasse a entrar. Surpreendido, dirigiu-se ao gatinho e imediatamente a árvore, por baixo da qual se tinha abrigado, foi atingida por um raio. Grato por ver a sua vida salva, o nobre tornou-se patrono do local, que em breve deixava a sua pobreza. Os Maneki-Neko, são amuletos para sorte e prosperidade, exactamente o que Tama trouxe ao pequeno templo e ao seu pobre monge. De acordo com algumas fontes, desde aí são considerados encarnações da Deusa da Misericórdia, uma divindade protectora. Quando Tama morreu foi enterrado no cemitério do templo e esculturas de Maneki-Neko foram feitas em honra deste "magical cat".
O templo foi rebaptizado de Gotokuji em 1697. e hoje há centenas de Maneki-Neko de vários tamanhos, trazidos por quem precisa de sorte, mas também por quem pede pelos seus gatos perdidos ou doentes.
Se alguém encontrar o meu Maneki dourado, em gif e de patinha a dar a dar...hei-de pensar numa recompensa...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O GATO NO NIRVANA

As pinturas que representam o Nirvana de Buda, exercem um fascinio especial sobre os Japoneses e estão intimamente ligadas ao Budismo Zen e á sua filosofia de vida. A figura proeminente é obviamente o Buda, no seu adeus tranquilo aos seus discipulos, rodeado de animais, rochas, árvores, deuses, e com uma expressão de quem está satisfeito consigo e com o Mundo. Ao contrário dum Cristo vertical e sofredor, temos um Buda na horizontal e em paz.
No mosteiro Zen Tofukuji em Quioto, há uma pintura do Nirvana famosa e rodeada de muitas histórias. Foi pintada pelo monge Cho Densu (1352-1431), e é uma das maiores deste género. Diz-se que o exécito da família Hosokawa, a utilizou para proteger o seu acampamento dos ventos, num período de guerra em Quioto, no século XVI. Conta-se também, que quando Cho Densu estava ás voltas com essa enorme tela, um gato costumava vir visitá-lo, sentando-se a seu lado contemplando os progressos do trabalho. O artista, que precisava de azul ultramarino em forma de pigmento mineral, disse-lhe um dia, meio a brincar: "Se fores suficientemente bom para me trazeres aquilo que eu quero, pinto o teu retrato nesta tela." Até aí, o gato, não costumava ser um animal retratado no Nirvana.
Como que por milagre, no dia seguinte, o gato, não só lhe trouxe o material de que ele tanto precisava, como o conduziu a um local onde poderia obtê-lo em abundância. A alegria do monge foi imensa, e cumprindo a sua palavra, incluiu o gato na sua pintura.

sábado, 12 de junho de 2010

TERU TERU BOZU - Do Make Tomorrow A Sunny Day

Ninguém gosta muito de chuva, e os Japoneses não são uma excepção. Para que a chuva pare (sobretudo na estação em que é mais frequente), ou para que nem sequer apareça, há uma tradição Japonesa, que consiste em pendurar nas janelas, umas bonequinhas kawaii, feitas de papel ou pano, as Teru Teru Bozu. Estes simpáticos "fantasminhas" são amuletos para trazer o bom tempo, e teriam nascido depois que um monje prometeu aos habitantes duma aldeia que faria parar a chuva que estragava as suas colheitas, promessa que infelizmente não conseguiu cumprir, o que motivou a cólera dos camponeses, que por isso o decapitaram. No vídeo abaixo, numa canção de Shinpei Nakayama, datada de 1921, conta-se esta mesma história:

"Teru Teru Bozu, Teru bozu
Do make tomorrow a sunny day
But if the clouds are crying
Then I shall snip your head off"

Hoje aqui, o dia está triste e cinzento. Um dia chuvoso, e eu sem nenhuma Teru Teru Bozu...

domingo, 30 de maio de 2010

A GEISHA E O CÔNSUL

Durante 250 anos, o Japão, foi governado pelos shoguns, que mantiveram uma política de total isolamento do país, mantendo-o afastado dos perigos e influências do resto do mundo, até que, numa brilhante manhã do Verão de 1853, a pacata cidade de Shimoda e o resto do Japão foram despertados, não suavemente como na história da Bela Adormecida, mas mais abruptamente, com a chegada dos kurofune (Navios Negros) do Comodoro Matthew Perry (mais sobre isso no Banzai, aqui).
A chegada dos assustadores e fumegantes navios Americanos, pôs em marcha um processo que viria a finalizar esses dois séculos e meio de isolamento, levando á queda do Shogunato Tokugawa, e mais tarde ao retorno do Imperador ao Trono do Crisântemo (ver Banzai)
Depois do Tratado de Shimoda, assinado em 1854, e que estabelecia a abertura de três portos ao comércio com o exterior, o primeiro Cônsul Americano, Townsend Harris, instalou-se no Templo de Gyokusenji nos arredores de Shimoda, em 1856. E é aqui que começa a história que queria contar. Uma história envolta em lenda e com diferentes versões, mas que deu origem a diversos livros, filmes, e peças de teatro kabuki, e é lembrada em Shimoda através de museus e dum túmulo.
Em Shimoda havia uma geisha de nome Saito Kichi, dotada de imensa beleza e talentos, reza a história que teria sido notada pelo cônsul e que este teria exigido os seus serviços através das autoridades locais, oferecendo-lhe como pagamento uma soma considerada uma fortuna. Diz-se também que foi com relutância e forçada, que ela terá sido levada num palanquim enviado por Harris para a transportar até ao Templo. Mas, apenas três dias depois, o Cônsul prescindiu dos seus serviços, argumentando que era portadora duma doença de pele. A partir daí começou a ser chamada de Tojin Okichi (a concubina do estrangeiro), e a ser ridicularizada pelos locais, não só pelo seu contacto com um "bárbaro", mas também por ter sido rejeitada. Começou a beber, abriu um restaurante que não conseguiu manter (o edificio ainda existe) e acabou por pôr termo à vida, afogando-se. Não é uma história com "happy end", mas reflecte um retrato da época e também da crueldade das pessoas.

sábado, 29 de maio de 2010

BAKU - O DEVORADOR DE PESADELOS

"Zombie Meat" é um novo snack Japonês feito á medida dos apreciadores do horror. Consiste em pequenos pedaços de carne azulada que, de acordo com a descrição que consta da embalagem, foi envelhecida no túmulo. Jeeeezzz!
E, se depois de assistirem a um filminho de terror, acompanhado com esta delícia, tiverem pesadelos, basta chamarem os Baku, lendárias criaturas da mitologia Japonesa, também conhecidas por "devoradores de pesadelos".
Os Baku, são quimeras, criaturas compósitas, com olhos de rinoceronte, garras de tigre, cauda de raposa e nariz de elefante. Segundo a tradição Japonesa, os pesadelos são trazidos pelos maus espíritos. Se acordarmos com algum, basta chamarmos por Baku que ele trata de o afastar, transformando-o em boa sorte. Em Nikko e Kamakura, há templos ornamentados com figuras destes "Dream Eaters".
"Que animais são aqueles? - perguntou a pequena raposa.
São Baku. Eles são os Devoradores de Sonhos. - respondeu a grande raposa."
Neil Gaiman e Yoshitaka Amano, The Sandman: The Dream Hunters

terça-feira, 25 de maio de 2010

TÚMULO DE JESUS CRISTO NO JAPÃO?

 Em Aomori, no Japão, fica uma remota vila Japonesa de nome SHINGO (conhecida também por Herai) onde, em 1935, teriam sido descobertos por um famoso investigador, Kyomaro Takeuchi, documentos antigos em hebraico, contendo evidências que indicavam que essa vila albergava o túmulo de Jesus Cristo. Os documentos causaram grande alarido na imprensa da época e teriam sido alegadamente confiscados pelas autoridades e encerrados num museu em Tóquio, entretanto destruído durante os bombardeamentos da II Guerra Mundial. 
Actualmente, o sítio onde supostamente se localiza o túmulo está devidamente assinalado...
e está rodeado dum parque com jardins e um museu onde se reunem documentos históricos e evidências da presença de Cristo naquele local.
A lenda, contada pelos habitantes da vila e publicada em brochuras turísticas diz que:
"Quando tinha 21 anos, Jesus Cristo veio ao Japão e estudou teologia durante 12 anos. Voltou à Judeia com 33 anos, para pregar, mas as pessoas daí rejeitaram os seus ensinamentos e prenderam-no para o crucificar. Mas, foi o seu irmão Isukiri, que tomou o seu lugar na cruz. Jesus Cristo, tendo escapado da crucifixação, continuou as suas viagens e finalmente voltou ao Japão, onde se instalou nesta vila, Herai, e viveu até aos 106 anos. Neste lugar sagrado, o túmulo da direita é dedicado a Jesus Cristo, enquanto o da esquerda celebra o seu irmão Isukiri. Tudo isto está escrito no Testamento de Jesus Cristo."
No parque estão também os túmulos da família Sawaguchi, que sempre terá tomado conta do local desde tempos imemoriais. Os Sawaguchi são o equivalente dos Saint-Clairs no Codigo da Vinci, são considerados descendentes de Cristo. A sua casa no parque, ostenta um emblema muito semelhante á Estrela de David, símbolo dos Hebreus desde tempos ancestrais.
Em 2004, o Embaixador de Israel veio a Shingo doar uma placa com uma inscrição em Hebreu:
"Esta placa é uma oferta da cidade de Jerusalém como símbolo da amizade entre o estado de Israel, a cidade de Jerusalém e Shingo"
De acordo com o Professor Eiji Kawamorita, uma autoridade em cultura Hebraica, as líricas das canções entoadas anualmente no Festival de Cristo, ali celebrado, cuja origem e sentido se perdeu nos tempos, teriam sido originalmente língua Hebraica.
Tudo isto figura na Wikipedia, e mais delhadamente neste site, donde também retirei as fotos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Supernatural Japan

Corria o ano de 1918, quando um rapazinho de 17 anos, Ekichi Suzuki, foi visitar Sapporo e decidiu comprar uma bonequinha para levar á sua irmã mais nova, de nome Okiku. Era uma boneca como tantas outras, que Okiku adoptou como brinquedo favorito, embora não durante muito tempo. Adoeceu, e acabaria por morrer subitamente aos 3 anos de idade. A família colocou a bonequinha no altar da casa em memória de Okiku. Passado algum tempo, começaram a reparar que o cabelo da boneca parecia crescer. Tomaram o facto como um sinal de que o espírito de Okiku se tinha apoderado do seu brinquedo.
 Em 1938, mudaram-se para outra cidade, deixando a boneca ao cuidado do Templo Mannenji, em Hokaido, onde o cabelo continuou a crescer. Com o tempo, atingiu os 25 cm. A boneca mede apenas uns 40 cm.
O facto mais arrepiante é que num exame feito por cientistas, parece ter-se concluído que o cabelo pertence mesmo a uma rapariguinha. 
Até hoje, os monjes continuam a cortá-lo periódicamente.
A imagem da Okiku Doll a preto e branco, é da autoria de Shohei Otomo aka Hakuchi.

sábado, 17 de abril de 2010

The Flowers of Edo

 No antigo Edo, os incêndios eram frequentes e muito facilitados, devido ao tipo de construções em madeira e aglomeradas. Dizem os historiadores, que os habitantes da cidade, tinham uma apreciação curiosa destas destruições, encontrando-lhes uma estética apelativa que os levou a alcunhar os fogos de "Edo no hana" (As flores do Edo). Talvez o mesmo sentimento tivesse inspirado Yukio Mishima quando escreveu a propósito dos bombardeamentos a Tóquio em 1945: " Os "raids" aéreos na distante metrópolis, a que eu assistia do abrigo no arsenal, eram belos. As chamas pareciam tomar todas as cores do arco-íris: era como observar ao longe, a luz duma enorme fogueira, num grande banquete de morte e destruição." 
 Yaoya Oshichi,, era filha dum vendedor de vegetais de Edo. A sua casa ficou destruída num grande incêndio em 1682, pelo que a família teve que procurar abrigo num templo. Durante a sua estadia, Oshichi apaixonou-se por um jovem monje. Na Primavera do ano seguinte, desesperada para voltar a ver o seu amado, deitou fogo à nova casa onde viviam, na esperança de que a família se refugiasse novamente no templo. Infelizmente, o fogo alastrou ás habitações vizinhas. Oshichi ainda mal tinha feito 15 anos, mas a lei era clara face á idade e culpabilidade. Tivesse o criminoso 14 anos ou menos, e a pena era o exílio numa ilha remota. Mas, atingidos ou ultrapassados os 15 anos, seria queimado em praça pública.
Muitas pessoas assistiram na rua, quando Oshichi foi levada, juntamente com outros criminosos. A sua beleza e modos destemidos valeram-lhe o estatuto de lenda popular, inspirando desde então, inúmeras peças de Kabuki.
O seu túmulo está localizado num Templo de Hakusan, Tóquio.
Imagem de Utagawa Kuniteru, 1867. Via Wikipedia.

domingo, 28 de março de 2010

DARUMA

Daruma, o sábio indiano que viveu no século V ou VI da nossa era cristã, é considerado o Pai do Budismo Zen, que foi espalhando pela China, muitos séculos antes deste florescer no Japão. Muitas lendas se contam a seu respeito, a mais conhecida é a de que terá atingido a iluminação (satori), depois de meditar numa gruta durante sete anos sem fechar os olhos ou sequer pestanejar.

Tantos foram os anos em que permaneceu imóvel que os braços e as pernas se lhe gastaram. E é assim, só com a cabeça e com o tronco, envolto num manto carmesim, que ainda hoje é figurado.

Consta ainda que, em certa noite, durante a sua meditação, as pálpebras se lhe terão fechado de cansaço, e o bom Daruma deixou-se adormecer. Quando acordou, indignado por tal ter acontecido, pediu a alguém um instrumento, com o qual cortou as pálpebras, atirando-as ao solo, onde estas, por milagre enraizaram, dando lugar a um gracioso arbusto, nunca visto. As folhas dessa planta, postas de infusão em água quente, revelaram-se remédio óptimo contra o sono e o cansaço. Estava conhecido o chá, "que é coisa santa, como se acaba de provar".

Hoje, no Japão, os sempre-em-pé, representando Daruma, são vendidos como amuletos. Vêm com os olhos em branco, para que se pinte um deles quando se pedir um desejo, e o outro quando este for realizado.

Fonte: Wenceslau de Moraes, Fala a Lenda Japonesa

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Castelo Assombrado

No Japâo, circulam antigas lendas acerca de pessoas deliberadamente enterradas vivas no interior de castelos, pontes, ou outras construções, pela crença de que uma estrutura mais duradoura e resistente, podia ser conseguida, selando pessoas nas paredes ou fundações, como forma de contentar os deuses. Brrrrrrr!
Uma destas histórias, é a do Castelo de Matsue, construído no século XVII. De acordo com a lenda local, uma das paredes da torre central, teria caído várias vezes durante os trabalhos de construção. Convencidos de que um "pilar humano" poderia estabilizar a estrutura, os trabalhadores decidiram procurar alguém durante um Festival. Na multidão, escolheram uma bonita rapariga com dotes de dançarina. Depois de a encerrarem dentro da parede, os trabalhos prosseguiram sem mais nenhum incidente.
Contudo, o espirito sem descanso da infeliz, passou a assombrar o Castelo depois da conclusão das obras.
Lafcadio Hearn, descreveu a maldição do Castelo, no seu livro "Glimpses of Unfamiliar Japan", de 1894. Segundo ele, toda a estrutura tremia, sempre que alguma rapariga de Matsue dançava na rua, pelo que, uma lei foi promulgada, proibindo a dança em locais públicos.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O Samurai e a Cerejeira

ONCE UPON A TIME... havia um Samurai que tinha no seu jardim uma muito venerada cerejeira. Em criança tinha-se pendurado nos seus ramos e brincado sob a sua sombra, e o mesmo tinham feito os seus antepassados. E durante mais de cem anos todos se tinham maravilhado com as suas flores e escrito poemas em sua homenagem.

O Samurai envelheceu e ficou sózinho, e a cerejeira era o seu bem mais querido. Acontece que num certo Verão, a árvore começou a secar e morreu. Vendo o seu imenso desgosto, os vizinhos plantaram-lhe no jardim, uma nova e bonita cerejeira, que ele agradeceu, fingindo alegrar-se, mas não pensando noutra coisa senão na antiga e amada árvore.

No décimo sexto dia do primeiro mês, de acordo com o calendário lunar, ainda no Inverno, o Samurai dirigiu-se ao jardim e inclinando-se perante a velha cerejeira, disse-lhe:"Por favor, peço-te que floresças novamente, ou sou eu que vou morrer na tua vez!"

E calmamente o velho Samurai, estendeu um pano branco debaixo da sua cerejeira e cometeu seppuku. E acredita-se que o seu espírito teria penetrado a árvore, que naquela mesma hora começou a florir.

"And every year it still blooms, on the sixteen day of the first month, in the season of snow."

Fonte: Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things, Lafcadio Hearn

Fotos via Flickr.

sábado, 5 de dezembro de 2009

A maldição do samurai

Taira no Masakado (903-940AD), é tido como o primeiro samural do Japão. Um pequeno mas bem sucedido senhor da guerra, Masakado rebelou-se contra o governo Imperial de Quioto, estabelecendo um reino independente na região de Kanto, e declarando-se como o "novo Imperador de todo o Japão". Não tardou muito até que caísse com uma flecha espetada entre os olhos, e a sua cabeça decapitada fosse levada para Quioto para ser exibida em praça pública. De acordo com a lenda, o espectáculo também foi breve. A cabeça do senhor da guerra, ergueu-se furiosa pelos céus da cidade, retornando á região de Kanto, em busca do corpo que a completasse. Depois de muitos e infrutíferos esforços, acabou por cair dos céus num pedaço de terreno, que passou a ser conhecido como Masakado no Kubizuka-A Colina da Cabeça de Masakado. Os habitantes do local, aterrorizados, teriam lavado a cabeça, para depois a enterrarem, erguendo no sítio um memorial para lhe apaziguar a fúria.
Avançando em fast-forward, 1000 anos depois, a pequena vila piscatória em que tudo isso sucedeu, transformou-se numa metrópole: Tóquio, e o antigo santuário de Masakado fica a cinco minutos de caminhada desde o Palácio Imperial.
E aqui começa a verdadeira história da maldição. Depois do terramoto de 1923, o Ministro das Finanças, aproveitou para nivelar o sítio, enchendo o lago onde supostamente teria sido lavada a cabeça e construindo ali um edíficio temporário ligado ao seu ministério. Em dois anos o Ministro e outros 14 funcionários morreram vítimas de doença ou acidentes diversos. O edificio foi destruído e a colina reconstruída com direito a rituais Shinto para apaziguar os espíritos.
Quando as forças americanas ocuparam o Japão, houve mais uma vez uma tentativa de nivelar o local, desta vez, para que servisse como parque a veículos militares. Um acidente com um bulldozer durante os trabalhos, matou o condutor. Uma série de outros desafortunados incidentes, em conjunto com pedidos de diversas figuras locais, convenceram os militares americanos a abandonar o projecto, deixando novamente a cabeça de Masakado gozar do merecido descanso e respeito.
Hoje o Santuário de Masakado, pode ser visitado em Otemachi, Tóquio e todos os anos em Maio, há um festival em sua honra.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Lendas Japonesas

Os dragões, na mitologia asiática são adorados como símbolos de sorte e vistos como seres benevolentes, frequentemente associados com a água e o vento. Há uma lenda curiosa, associada ao templo de Kuzuryu, em Hakone, cuja pequena tori aparece na foto acima, no Lago Ashi.
Diz-se, que durante o Período Nara (710-794), um temível dragão com nove cabeças, se teria instalado no Lago Ashi, exigindo aos habitantes locais sacríficios humanos, uma jovem rapariga todos os anos. Quando soube disto, um sacerdote de nome Mangan, exorcizou o dragão, prendendo-o de seguida numa gruta sob a água. Com o tempo, o dragão "regenerou-se", passando a ser venerado como " Great God Nine-Headed Dragon". O sacerdote construiu-lhe então um santuário, onde as ofertas variavam entre arroz com feijão azuki e sacrifícios humanos.
Desde então, o dragão tornou-se no espírito guardião do lago.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

MANEKI-NEKO







Quem conhece o Banzai, sabe que uma das suas mascotes é um gatinho dourado a agitar uma das suas patinhas: um dos meus "lucky charms", o meu Maneki-Neko! Há muitas histórias sobre as origens destas esculturas, mas aqui fica uma das minhas preferidas.
No início do período Edo, no local onde fica hoje o Gotokuji em Tóquio, havia um pequeno templo, onde vivia um monje muito pobre acompanhado do seu gato, de nome Tama. Um dia, um nobre que voltava duma caçada, foi apanhado pela chuva ali perto e abrigou-se debaixo duma árvore. Após um momento, os seus olhos detiveram-se num gato sentado na entrada do templo, acenando-lhe como se o convidasse a entrar. Surpreendido, dirigiu-se ao gatinho e imediatamente a árvore, por baixo da qual se tinha abrigado, foi atingida por um raio. Grato por ver a sua vida salva, o nobre tornou-se patrono do local, que em breve deixava a sua pobreza. Os Maneki-Neko, são amuletos para sorte e prosperidade, exactamente o que Tama trouxe ao pequeno templo e ao seu pobre monje. De acordo com algumas fontes, desde aí são considerados encarnações da Godess of Mercy, uma divindade protectora. Quando Tama morreu foi enterrado no cemitério do templo e esculturas de Maneki-Neko foram feitas em honra deste "magical cat".
O templo foi rebaptizado de Gotokuji em 1697. e hoje há centenas de Maneki-Neko de vários tamanhos, trazidos por quem precisa de sorte, mas também por quem pede pelos seus gatos perdidos ou doentes.

sábado, 17 de outubro de 2009

A thousand origami cranes
















Sadako Sasaki tinha apenas dois anos quando a bomba nuclear caiu em Hiroshima a 6 de Agosto de 1945. Dez anos depois, foi-lhe diagnosticada leucemia em consequência da exposição às radiações. Durante o tempo que passou no hospital, recebia visitas da sua melhor amiga, que, um dia, cortou um pedaço de papel num quadrado e se pôs a dobrá-lo transformando-o num grou em origami, recordando a Sadako a lenda japonesa que diz que aquele que dobre 1000 origami grous, verá o seu desejo concedido por uma dessas aves, no Japão consideradas criaturas sagradas e com uma vida de 1000 anos. Diz-se que Sadako, não teria conseguido chegar ao fim do seu objectivo, dobrando apenas 644 grous, e que os seus amigos terão completado os 1000, enterrando-os com ela. Está visto que os deuses, alados ou não, são demasiadas vezes surdos aos desejos dos pobres mortais. A história de Sadako é contada no livro "Sadako and The Thousand Paper Cranes".
Os "thousand paper cranes" são oferecidos no Japão em casamentos ou nascimentos como desejos de boa sorte e prosperidade, ou pendurados em casa com o mesmo fim.
Com a história de Sadako tornaram-se também um símbolo do desejo de Paz, razão porque se encontram imensos no Peace Memorial Park em Hiroshima. Confesso que quando tirei as fotos que agora aqui publico, durante uma curta visita a Hiroshima, há uns anos atrás, não sabia o seu significado.

sábado, 3 de outubro de 2009

Os 47 Samurais


No início do século XVIII, um jovem daimyo (senhor feudal) de seu nome Lord Asano, veio da província para cumprir um tempo de serviço na corte. A iniciação do jovem estava nas mãos de Lord Kira, Master of Protocol, que por uma ou outra razão, não incluiu Asano na sua lista de simpatias. Os insultos e humilhações de que este foi alvo, levaram a que um dia perdesse a cabeça e erguesse a sua espada contra Kira, ferindo-o na face. Ainda que o ferimento fosse ligeiro, era considerado completo desrespeito qualquer tipo de violência dentro do Castelo do Edo, residência do shogun. Lord Asano, foi então condenado ao suicídio ritual, os seus bens e propriedades foram confiscados, a sua família banida e os samurais ao seu serviço tornaram-se ronin (samurais sem um senhor a quem honrar).

Destes homens, quarenta e sete, chefiados por Oishi, fizeram um pacto de honra, jurando vingar o seu senhor. Para não chamar sobre eles a atenção das autoridades e do próprio Lord Kira, dispersaram-se, tornando-se monges, comerciantes ou fazendo-se passar por bêbados e vagabundos, esperando pacientemente pelo momento em que Kira, esquecido do incidente, baixasse a sua guarda.

Dois anos depois, numa fria madrugada de Dezembro em 1702, pelo meio dum forte nevão, os 47 samurais invadiram a casa de Kira, poupando mulheres e crianças e todos os que não se lhes opuseram. Depois de demorada busca, acabaram por encontrar Kira, escondido num armário, tendo-lhe Oishi dado a oportunidade de se suicidar ele próprio como um verdadeiro samurai o faria. Mas, perante um trémulo Kira suplicando para lhe pouparem a vida, a espada que fora pertença de Lord Asano, foi usada para o decapitar.

Os 47 ronin, transportaram, então pelas ruas cobertas de neve a cabeça de Kira, levando-a até ao túmulo do seu senhor, no templo de Sengaku-ji.

No templo, lavaram e limparam a cabeça, depositando-a, juntamente com a fatidica espada junto ao túmulo.

Fizeram as suas preces, dando todo o dinheiro que tinham ao padre do templo, para que os sepultasse de forma digna e oferecesse orações por eles. Depois, entregaram-se às autoridades.

Os oficiais do shogunato, foram colocados perante um dilema. Aqueles 47 homens, não tinham senão seguido os preceitos do bushido, vingando o seu senhor. Por outro lado tinham desafiado a autoridade do shogunato. Houve muitas petições no sentido de lhes pouparem a vida. No final, em vez de os condenarem como criminosos, deram-lhes a escolha digna do seppuku, que eles cometeram prontamente.

Esta história, gira à volta de valores como o sacrifício, a lealdade, a persistência, a honra e a ausência de medo perante a morte, todos no centro do bushido, o código de ética samurai que durante quinhentos anos moldou o Japão e que ainda atravessa a sociedade japonesa.

Os túmulos dos 47 ronin, podem ver-se no Sengaku-ji, um templo budista zen, localizado perto de Shinagawa Station em Tóquio.

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