domingo, 23 de maio de 2010

WENCESLAU DE MORAES - O PORTUGUÊS QUE ABRIU A JANELA DO JAPÃO

"Cheguei ao Japão. Amei-o em transportes de delírio, bebi-o como se bebe um néctar..." - foram estas as palavras de Wenceslau de Moraes, quando visitou pela primeira vez o País do Sol Nascente. A cultura exótica e delicada do Japão e a sua beleza, desde há muito que exercem o seu fascínio em muitos estrangeiros, mas, o Português Wenceslau de Moraes, não se deixou apenas encantar, quis viver, amar e morrer, "...jazendo para sempre à sombra do bambual, onde as cigarras iriam cantarolando hinos eternos!...", no país onde "as minhas forças emotivas mais pulsaram em presença dos encantos da natureza e da arte."
Moraes, nasceu em Lisboa a 30 de Maio de 1854, frequentou a Escola Naval, sendo nomeado imediato da Capitania do Porto de Macau em 1891. Em Macau, casa com a chinesa Atchan de quem teve dois filhos. Durante a sua estadia, visita por diversas vezes a China e o Japão, países entre os quais considera existirem diferenças profundas. Descreve a China referindo-se "à imundície dos seus povoados, onde chafurda um cardume de gente feia por excelência...". É o Japão que o fascina desde logo: "esse país atraente entre todos, pela sua paisagem ameníssima, pelo puro azul do céu privilegiado, pelo seu povo interessante...".
Em 1899 deixa para trás Macau, Atchan e os filhos para ocupar o lugar de cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka e posteriormente em Kobe e Osaka. Aquilo a que chamam a sua "japonização" começa aqui. Casa em 1900, segundo os ritos shintoístas, com uma geisha de Osaka, O-Yoné. Mais próximo da terra e do seu povo, quer transmitir a outros, os seus compatriotas, a sua paixão e entusiasmo. Fá-lo através da escrita, tarefa que já tinha iniciado em Macau. Deixa-nos uma série de livros, muito pouco conhecidos entre nós, em que documenta as paisagens, a história, a tradição e a alma Japonesas.
Após a morte de O-Yoné. em 1913, abandona o seu cargo consular e vai viver para a terra natal desta, Tokushima: "Ora é nesta terra de deuses e de budas (...), onde vim à procura da paz, da tranquilidade(...). Incrível ousadia, para um loiro, para um homem dos países de raça branca e, ainda por cima Português!..." Em Tokushima converte-se ao Budismo e ainda tem um último amor, a Japonesa Ko-Haru.
Mas Ko-Haru, também morre por doença, deixando-o desta vez, sózinho na companhia dos seus gatos e das suas saudades. Apesar dos seus esforços, não foi aceite nem compreendido pelo povo de Tokushima - "...este bom povo de Tokushima, arisco, conservativo, detestando cordialmente o europeu..." Morreu em 1929 e foi, conforme o seu desejo, cremado e enterrado segundo os ritos budistas, e as suas cinzas colocadas junto das de Ko-Haru, já que a família de O-Yoné lhe recusou essa vontade. O seu kaymiô, o nome budista atribuído após a sua morte, e que se encontra gravado no seu túmulo em Tokushima, pode ser traduzido por "o homem que abriu a janela do Japão para o exterior através dos livros". Hoje existe um monumento em sua honra na cidade onde passou os últimos anos da sua vida.
No monumento há uma inscrição : "Aquele que trocou a sua alma pela japonesa". Mas Wenceslau de Moraes, foi sempre até ao fim, um "porutugaro-jin" em terras do Japão.

9 comentários:

andreia inoue disse...

parabens pelo post,adorei!!
beijao.

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Já ouvi falar muito de Wenceslau de Moraes. Sabe que esse post levanta uma questão na qual mostra diferenças na visão de orientais e ocidentais?
Ocidentais (me incluo no grupo, pois nasci no Brasil e minha cultura é de lá) tem uma tendência a ver mais com sentimento que com a razão, ao contrário do oriental.

Oriental é 1=1,sempre 1
Ocidental 1=1, mas pode ser dois, tres, o que for mais adequado e melhor condizente com a imagem do número em questão.

Apesar de Wenceslau praticamente ter se tornado um japonês, aqui ele nunca foi e nunca será considerado um japonês. Porque ele nasceu em...Portugal! Na visão dos japoneses, esse é um dado óbvio. E renegar a origem dele, afirmar que ele é japonês, no Japão seria algo muito ofensivo à Portugal. Seria o mesmo que dizer que vc não é filho (a) de sua mãe e sim de outra mãe!

Para nós, ocidentais, não. No Brasil consideramos brasileiros de verdade muitas pessoas nascidas em outros países e que praticamente fazem tudo igual a um brasileiro e gosta do país. Porque no coração da pessoa mora o Brasil. E adoramos isso.

Já os japoneses... acham simpática a idéia de alguém não-japonês que ama o Japão. Gostam de quem admira a cultura japonesa, o povo.
Mas acham um defeito muito grave quem não tem amor pela própria raiz, se desvincula de sua imagem original. Para os japoneses, é renegamento da pátria de origem, falta de amor a terra que nasceu, uma espécie de "vira-casaca" (como dizemos no Brasil). Um erro inaceitável, já que cada um de nós tem sua essência, sua origem e antes de tudo devemos ter respeito por isso.

Vejo alguns amigos que vieram ao Japão apaixonados pelo pais. Tentaram fazer tudo como os japoneses fazem. Desde o modo de vestir, falar, se comportar. E não deixaram uma margem para seu próprio comportamento original, com traços de sua própria cultura. E em vez de serem acarinhados pelos japoneses, foram de certa maneira rejeitados e não entenderam o motivo. A explicação é simples: ninguém gosta de cópia, o que vale é o original. Anular a identidade pessoal, cultural, é uma forma de subserventia, de menos valor. Adaptar-se a uma cultura é excelente, por respeito e admiração, mas nunca deve-se perder a identidade original.

No fundo ninguém gosta de cópia ou imitação, pq fica bem diferente do original, beirando o caricato.

Não sei se consegui ser claro na explicação (longa demais rs).

Um bjão pra vc, Margarida!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Oi. vou falar resumidamente de Kamagasaki, que vc me perguntou. Até que é um bom tema para post.

Vou ser sincero. Um japonês só não encontra trabalho se não quiser trabalhar. Há todo o tipo de ajuda do governo para tal (hello work), até moradia sem custo para desempregados, etc. Não tem como reclamar do sistema social do Japão. Paga-se por ele, mas qdo precisa todo mundo recebe o seguro desemprego, auxílio para busca de novo emprego etc.

Mas toda ajuda tem um preço. Qto mais ajuda o governo te oferece, mais é cobrada uma postura de responsabilidade de sua parte.
O governo cobra disciplina (ou seja, trabalhar sério), vícios devem ser encerrados, tratados. Principalmente bebida.
Você sabe, muita genta abandona a família, mas não larga a bebida, as drogas...

Morei próximo à Osaka, mas nunca estive em Kamagasaki.
Kamagasaki tem a fama de ser destino para quem está a fim de bandalheira mesmo, de bagunça. Ou consome drogas, é alcóolatra e não quer ser incomodado pela polícia. é uma região controlada de forma austera por um grupo da máfia japonesa. Ou seja, um canto liberado para certa contravenção, sem incômodo da rigorosa polícia local, entende, justamente pelo controle da máfia.
Mais ou menos é isso. Porque num país pequeno como o Japão ninguém mora em lugar ruim de propósito. (é comum que muitos contratantes ofereçam emprego e moradia, chamados de "ryo"). Quem está em Kamagasaki provavelmente tem algum problema ou tem alguém na família envolvido com contravenção, porque falar que não tem outra opção de moradia em uma cidade tão grande como Osaka...

Nilce disse...

Menina,

Vc tinha razão. O post é sensacional. E com a complementação do Alexandre então...

Sou uma mistura de europeus com indígenas, mas sempre tive um fascínio inexplicável pela cultura japonesa.

Uma das primeiras coisas que achei interessante, foi o fato de, quando era adolescente, uma amiga casou com um japonês, eu namorava outro, rsrs, e ela não poder ter duas nacionalidades. O japão não aceita.

O Alexandre explicou tudo e este post demonstrou esta questão de valores e cultura.
Maravilhoso post.

Bjs no coração!

Nilce

Nilce disse...

Ah, Margarida

Agora eu quero o barulhinho no meu blog...

Me manda por e-mail passo a passo, porque entrei na página e é tudo em japonês.
Socorro!

Eu ia te mandar um selinho que ganhei semana passada e esqueci de te falar que já o vi no teu blog.

Vc não quis pegar o outro que deixei lá? Pega vai.
É o selo da Gilmara.

Bjs no coração!

Nilce

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Eu vou pesquisar melhor sobre Kamagasaki, pra não escrever bobeira, considerar "a parte pelo todo", como disse hj rs.

Ei , e não diga q vc foi chata! Até parece. Se souber do assunto escrevo com o maior prazer.

A Nilce é uma fofa ne
bjs

Betty Gaeta disse...

Eu não conhecia a história de Wenceslau de Moraes! Fantásctica. Gosteria de ler algo que ele escreveu.
Bjkas e um ótimo domingo.

Nilce disse...

Oi, querida

Não entendi, pois eu sempre me coloco como seguidora antes até de add na minha lista de blogs.

Perdoe-me.

Estava aqui a ler posts antigos teus. Gostei muito do sobre aparências. Sensacional.

Não achei teu e-mail. Vc tem o meu, então se achar conveniente...

Já notou que não consegui por o sininho. Consegui até traduzir a página, mas acho que o meu templaste não aceitou. Vou tentar novamente.

Bjs no coração!

Nilce

Denise disse...

Olá, td bem?

Primeiramente agradeço pela visita em nosso blog (Tabeteimasu), sem ela não teria conhecido tantos assuntos interessantes, muito bacana a história do Wenceslau de Moraes.

E adorei as imagens que colocou em toda a página, eu sou suspeita pra falar em artes pois adoro td que é relacionado a desenho, imagem, escultura e outras manifestações artísticas, confesso que consegui buscar inspiração e paz dentro da minha alma (ainda mais com esse barulhinho do sininho que deixou no blog, é um convite pra relaxar mesmo rs!).

Parabéns!

Bjs e ótima semana!

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